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segunda-feira, 20 de abril de 2009

LAVANDO BANHEIRO ALHEIO


por ronaldo duran*


Emoção. Fiquei trêmula, balançada pelo desabafo. Usei este recurso outras vezes. Mas cada vez parece única. Idéia pueril. Chamar atenção para a importância de meus alunos se dedicarem aos estudos. A motivação para falar veio ao acaso. Irritei-me com a resposta negativa quanto ao futuro de entrarem na faculdade. “Ah, a sua família bancou tudo”. Neguei. Disse que aos 28 anos era empregada doméstica, e que a partir daquela data, um dia decidi estudar e não parei mais.

Depois da aula, ao volante, fico pensando no impacto de minhas palavras. Tomara que sirva para ajudá-los a se encaminharem. E refletindo sobre minha própria caminhada, uma admiração me envolve. Entendo por que eles acham faculdade coisa para gente rica. De certa forma, eu também pensava assim. Aleguei como motivo de estar ausente da escola a ajuda que dispensava à minha mãe e meus irmãos menores. Em parte, é verdade. O lado da acomodação pesou igualmente. Tenho 46 anos. Na minha época, já havia supletivo, inclusive público. O desânimo me abraçava só em pensar em ir à noite para a escola após um dia exaustivo de trabalho.

Tinha dois filhos quando notei o desejo de acompanhá-los nas atividades escolares. Como se eu estava na 6ª série do ensino fundamental aos 28 anos? Além disso, eu que cobrava deles o empenho nos estudos, o que eu diria quando estivessem adolescentes? Queria dar-lhes orgulho de ter uma mãe formada. Durante a faxina que eu fazia numa mansão do Aquarius nas quintas-feiras à tarde, é que me veio um quê de indignação. Não por estar lavando o banheiro alheio, mas por estar ali mais por falta de estudo do que pela minha inclinação pessoal. Pensei: apenas um papel, um diploma, me separa de exercer a função mais de acordo com minha dita inclinação.
Então, vou caçar este diploma.

O diploma vem atrelado ao conhecimento que em tese confere ao seu possuidor. Nada de comprar diploma. Matriculei-me na escola. Aos 28 anos já temos certa disposição física, acomodação, se casadas ou não. Venci a tempestade que é deixar o lar, muitas vezes com as crianças chorando. Cansaço no dia seguinte era a regra.

Leciono história. O ganho é similar ao que eu auferia quando empregada doméstica, sem deixar de incluir nas desvantagens a fala de um ou outro governador rotulando-nos de preguiçosas ou mal-casadas. Com um governante assim, não admira que em termos de ranking mundial nós estejamos em baixa no item educação. O que importa é como professora eu incentivo os filhos da periferia a jamais abandonarem o sonho de uma vida digna. E dignidade raramente vem sem um adequado nível de instrução acadêmica.


*Escritor, romancista e contista, colabora com crônicas em jornais do Brasil. Contato: ronaldo@ronaldoduran.com Site http://www.ronaldoduran.com/

sábado, 18 de abril de 2009



POR QUE QUASE


TODOS OS CRIMINOSOS SÃO HOMENS? Parte I[1]





por Satoshi Kanazawa[2],








POR QUE OS HOMENS COMETEM CRIMES INTERPESSOAIS VIOLENTOS?





Em todas as sociedades humanas, sem uma única exceção, os homens cometem a maioria esmagadora de todos os crimes e atos de violência. Por que é assim? Por que os homens são muito mais criminosos e violentos do que as mulheres? Há muitos universais culturais -- características da sociedade humana que são compartilhadas por todas as culturas conhecidas. Donald E. Brown forneceu a lista original de “universais humanos” (e escreveu um livro inteiro sobre eles, adequadamente intitulado Human Universals) em 1991, e Steven Pinker atualizou a lista em 2002, em seu livro Tabula Rasa: A Negação Contemporânea da Natureza Humana. Há provavelmente muitos universais culturais (contrariando o que Franz Boas e o que deterministas culturais pensam[3]) porque a cultura humana é uma manifestação da natureza humana em nível de sociedade, e a natureza humana é universal para todos os seres humanos. Eis porque todas as culturas humanas são mais ou menos as mesmas[4], e há tantos universais culturais. Entre os muitos universais culturais está o fato de que os homens, em todas as sociedades, são muito mais criminosos e violentos do que as mulheres.

Como eu explico em um post anterior[5], os seres humanos durante toda sua história evolutiva foram eficazmente polígamos, e muitos homens casados tiveram múltiplas esposas. Em uma sociedade polígama alguns homens monopolizam o acesso reprodutivo a todas as mulheres, enquanto outros homens são deixados de fora; em tal sociedade, alguns homens não conseguem reproduzir, enquanto quase todas as mulheres o fazem. Em outras palavras, há uma diferença enorme entre os sexos quanto à variação de oportunidades; a diferença entre “vencedores” e “vencidos” no jogo reprodutivo é muito maior entre homens do que entre mulheres. Esta grande diferença de oportunidades torna os homens altamente competitivos em seus esforços para não serem completamente colocados de fora do jogo reprodutivo. Esta competição envolvendo homens conduz a um nível elevado de violência (assassinato, tentativa de agressão, espancamentos) entre eles. O grande número de homicídios entre homens (comparados ao número de homicídios entre mulheres, ou entre os sexos) é uma consequência direta desta competição masculina por companheiras.

Em seu estudo compreensivo dos homicídios, os influentes psicólogos evolucionistas Martin Daly e Margo Wilson observam que a maioria dos homicídios entre homens vem do que é conhecido como “altercação banal”. Um homicídio típico na vida real não é como aquele descrito num episódio de Columbo: premeditado, bem planejado, e executado quase perfeitamente por um assassino meticuloso e inteligente. Ao invés disso, começa como uma briga sobre questões triviais de honra, status, e de reputação entre homens (como quando um homem insulta outro ou mexe com a sua namorada). Porque nenhum está disposto a recuar, as brigas evoluem até se tornarem violentas e um dos homens terminar morto. Porque as mulheres preferem se casar com homens de status elevado e de boa reputação, o status e a reputação de um homem correlacionam diretamente com seu sucesso reprodutivo: quanto mais elevado o status e melhor a reputação do homem, mais reprodutivamente bem sucedido será. Os homens são consequentemente altamente motivados (embora inconscientes) a proteger sua honra, e vão frequentemente longe demais para isso. Daly e Wilson explicam assim homicídios entre homens, em termos do desejo (na maior parte inconsciente) de proteger seus status e reputação na tentativa de ganhar o acesso reprodutivo às mulheres.

O estupro pode parecer ser uma exceção a este raciocínio porque, ao contrário dos assassinatos e das tentativas de agressão, as vítimas da violação são geralmente mulheres, e não há consequentemente nenhuma competição masculina pelo status e reputação. Entretanto, o mesmo mecanismo psicológico que compele os homens a ganharem o acesso reprodutivo às mulheres competindo entre si pode igualmente motivar homens a cometerem o estupro. Os estupradores predatórios são predominantemente homens da mais baixa classe e status, que têm perspectivas sombrias quanto a ganhar o acesso reprodutivo legítimo às mulheres. Quando não for uma manifestação de competição e de violência intrasexual masculinas, a violação pode ser motivada pelos mecanismos psicológicos dos homens que os incitam a ganhar ilegitimamente o acesso reprodutivo às mulheres, quando eles não têm os meios legítimos para tal.

A propósito, eis porque a pena de morte não pode intimidar o assassinato. A lógica da pena de morte supõe que a maioria dos assassinatos é premeditada: um assassino potencial pesa com cuidado e racionalmente os custos e os benefícios do ato, e decide não assassinar se os custos superam os benefícios. Isto pode descrever um assassino imaginário em Columbo, mas não os assassinos na vida real, que não param para pensar antes de transformar sua altercação por motivos triviais em lutas fatais.

A lógica da pena de morte igualmente supõe que a execução é o pior destino possível. De uma perspectiva psicológica evolucionista há algo pior que a morte, que é o fracasso reprodutivo total esperando todo homem que não competir por companheiras numa sociedade polígama. Se competirem e lutarem com outros homens podem morrer pelas suas mãos ou serem executados pelo Estado. Se não competem, entretanto, definitivamente morrerão, reprodutivamente, não deixando nenhuma cópia de seus genes. Assim, cometendo o delito também puderam competir, mesmo com risco de morte; a alternativa seria muito pior.

Em meu post[6] seguinte abordarei como podemos estender esta lógica para explicar porque os homens cometem crimes contra a propriedade.


Pesquisa e tradução: Marcos Brunini (marcosbrunini@yahoo.com.br).
São Paulo – SP, janeiro de 2009.


[1]Why are almost all criminals men? Part I, disponível em http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200807/why-are-almost-all-criminals-men-part-i, acessado em 06/01/2009

[2]Satoshi Kanazawa, psicólogo evolucionista na London School of Economics and Political Science e coautor (com Alan S. Miller) de Por Que Homens Jogam e Mulheres·Compram Sapatos - Como A Evolução Molda Nosso Comportamento. Rio de Janeiro: Prestigio Editorial. 2007.

[3]http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200805/exotic-culture-never-was-part-i
[4]http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200805/there-is-only-one-human-culture; http://informativoliteraturaviva.blogspot.com/, de 10 de abril de 2009
[5]http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/the-paradox-polygamy-i-why-most-americans-are-polygamous
[6]http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200807/why-are-almost-all-criminals-men-part-ii



PEDAGOGIA POLÍTICA



por Marcio Alexandre Masella*


e Roberta Braga Capalbo**



Este trabalho tem como objetivo apropriar-se do conhecimento relacionado à temática política e educação. No desenvolvimento das questões apresentadas Paulo Freire contextualiza a formação política do educador, embasando teoricamente nossas reflexões e dialogando com autores que discutem a política, como Aristóteles e Brecht e autores que discutem a relação entre política e educação, como Cortella e Saviani.

O papel do educador no seu ato político pedagógico e sua reflexão com o discente revela papéis antagônicos que, discutidos, analisados e ponderados, estabelecem uma lógica comum estruturada no diálogo e na tolerância em prol de uma transformação social.

Discutir o caráter político da educação é conscientizar-se que o papel do professor não é de transmitir conteúdos com uma postura de neutralidade ou de maneira desvinculada à realidade, e sim de uma construção de conhecimento que explicite sua postura política nas ações cotidianas e que permita aos educandos tornarem-se críticos e questionadores da sua realidade social, tendo sua própria ação política consciente como prática da transformação.


Buscamos compreender o papel do educador na ação consciente dentro de uma abordagem político pedagógica, enquanto meio de transformar a realidade voltada para a necessidade de conscientização, com respeito à diversidade humana no espaço da escola, com seus educadores e demais atores envolvidos, para resgate dos valores éticos e sociais.


INTRODUÇÃO

Buscar, transcender limites, ir além, descobrir, é o que faz do homem um ser em constante transformação. O ser humano é um ser de integração e isso possibilita nossa ação sobre o condicionamento cultural que temos, tornando-nos capazes de modificar a realidade.

A mudança, entretanto, pressupõe reflexão. Não uma reflexão apenas de constatação, mas uma reflexão que parta de uma ação e traga de volta a esta uma nova postura. É o que conhecemos como ação-reflexão-ação. É o ‘pensar certo’ que Paulo freire nos coloca.


Modificar a realidade pressupõe uma ação consciente. Consciência no que se faz, como se faz, por que se faz. Qualquer ação para com o outro se reflete numa ação consigo mesmo. Portanto é na nossa ação que mostramos ao outro nossas crenças. É sendo um educador crítico, questionador, estimulador, que ensinamos nosso aluno a sê-lo também. Para tomar tal postura é preciso nunca parar de aprender e de buscar novos saberes. Essa busca nos é inata e é sobre ela que devemos refletir.

Se buscar saberes é inato, nossa responsabilidade enquanto educadores é, através da diretividade da educação, ensinar nossos alunos a aprender. Aprender a aprender o social, o político, o cultural, o econômico, o ideológico, o histórico.


E aprender diante disso é perceber-se, reconhecer-se enquanto ser ativo em todas estas dimensões. É perceber a relação opressor-oprimido e nela refletir para libertar-se e libertar ao outro. É tornar possível aquilo que uma vez se disse e que foi soterrado por outros dizeres que se aceitam e/ou não se vêem enquanto oprimidos. É pensar que pode ser diferente, como pode ser diferente e o que se precisa fazer. É tornar concreto o ‘inédito viável’. A idéia de que ainda não é possível, mas pode ser. “ A autenticidade se dá quando a prática do desvelamento da realidade constitui uma unidade dinâmica e dialética com a prática da transformação da realidade”.[1]

Este desvelamento da realidade não é só por parte dos educandos, mas também, e em primeira instância, é responsabilidade de nós educadores. Que cidadãos buscamos formar e de que maneira? Precisamos exercitar a nossa capacidade de ação-reflexão-ação. Isso significa colocar-se numa postura ativa diante das situações educativas, perceber-se enquanto ser político.


Reconhecer-se como tal é o que dá concretude ao nosso trabalho, e, mais ainda, o que possibilita uma prática coerente e uma constante reflexão do nosso papel político-social e da nossa responsabilidade na construção de conhecimento dos nossos educandos.


(*) e (**) Mestrandos em Educação pela PUC de São Paulo.











[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança.3 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992,p.103








JEAN PIAGET:

DESENVOLVIMENTO DA INTELIGÊNCIA


por Nelson Valente*



JEAN PIAGET nasceu em Neuchâtel, na Suíça, em 1896. Diplomou-se em ciências naturais aos 21 anos, doutorando-se no ano seguinte. Interessou-se pela psicologia, realizando estudos em Zurique e em Paris.

FOI PROFESSOR dessa matéria nas Universidades de Neuchâtel, Lausanne e Genebra e de psicologia genética na Sorbonne, de 1952 a 1963. Presidente da Comissão Suíça na UNESCO, foi enviado em missão a Beirute, Paris, Florença e Rio de Janeiro. A UNESCO confiou-lhe a elaboração da obra O direito à educação.

PIAGET TORNOU-SE membro do Conselho Executivo da instituição.Piaget abordou o desenvolvimento da inteligência através do processo de maturação biológica. Para ele, há duas formas de aprendizagem. A primeira, mais ampla, equivale ao próprio desenvolvimento da inteligência. Este desenvolvimento é um processo espontâneo e contínuo que inclui maturação, experiência, transmissão social e desenvolvimento do equilíbrio.

A SEGUNDA FORMA de aprendizagem é limitada à aquisição de novas respostas a situações específicas ou à aquisição de novas estruturas para algumas operações mentais específicas.O processo de aprendizagem envolve a assimilação e a acomodação. Na medida em que participamos ativamente dos acontecimentos, assimilamos mentalmente as informações sobre o ambiente físico e social e transformamos o conhecimento adquirido em formas de agir sobre o meio.

O CONHECIMENTO ASSIMILADO para a constituir a bagagem de experiências que nos permite enfrentar as novas situações, assimilar outras experiências e formular novas idéias e conceitos. As novas aprendizagens baseiam-se nas anteriores assim, a inteligência humana desenvolve-se: aprendizagens simples servem de base a outras aprendizagens mais complexas.Quando transformamos o conhecimento assimilado em uma nova forma de ação, realizamos uma acomodação entre o nosso organismo nos aspectos físico e mental e o ambiente no qual vivemos.Através de assimilações e acomodações constantes e contínuas, cada indivíduo organiza sua noção da realidade, seu próprio conhecimento.

NO PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO, tal como é visto por Piaget, cada criança se desenvolve através de estágios. O autor distingue três estágios fundamentais:Sensorimotor – que vai do nascimento aos 2 anos de idade. Neste estágio a criança evolui de uma situação puramente reflexa até a diferenciação do mundo exterior em relação a si própria.Operações concretas – estende-se dos 2 aos 11 anos de idade e subdivide-se em pensamento pré-operacional (de 2 a 7 anos) e pensamento operacional concreto. Consiste na preparação e na realização das operações concretas em classes, relações e números.Operações formais – de 11/12 até 14/15 anos. Período no qual o adolescente ajusta-se à realidade completa de sua atualidade, mas também é capaz de lidar com o mundo das possibilidades.

OS PERÍODOS OU ESTÁGIOS preconizados por Piaget não constituem divisões arbitrárias do processo evolutivo. Cada um deles se reveste de características mínimas que o define.A teoria de aprendizagem de Jean Piaget alertou os educadores para o respeito ao estágio de desenvolvimento do pensamento infantil, adequando as atividades escolares às características evolutivas das crianças.

(*) é professor universitário, jornalista e doutor em Comunicação.

sexta-feira, 10 de abril de 2009


UMA CULTURA HUMANA[1]


por Satoshi Kanazawa[2], 11/052008.









As pessoas falam frequentemente da cultura no plural (“culturas") porque acreditam que há muitas diferentes culturas no mundo. De certo ponto de vista isto é naturalmente verdadeiro; a cultura americana é diferente da cultura chinesa, ambas diferentes da cultura egípcia, e assim por diante. Entretanto, todas as diferenças culturais estão na superfície; lá no fundo, no nível mais fundamental, todas as culturas humanas são essencialmente a mesma.

Sim, a cultura e a socialização importam para o comportamento humano, até certo ponto. Mas o grave erro de sociólogos tradicionais e de outros sob a influência do Modelo Clássico das Ciências Sociais (MCCS, ou, em inglês, Standard Social Science Model, SSSM) - um termo atribuído aos co-fundadores da psicologia evolucionista, Leda Cosmides e John Tooby - é acreditar que o comportamento humano é infinitamente maleável, capaz de ser moldado e formatado ilimitadamente de todo jeito pelas práticas culturais e pela socialização. A evidência disponível mostra que esta visão é falsa. O comportamento humano, quando maleável, não é infinitamente maleável pela cultura, porque a cultura não é infinitamente variável. De fato, apesar de todas as diferenças superficiais e menores, os psicólogos evolucionistas mostraram que todas as culturas humanas são essencialmente a mesma.

Para usar uma metáfora famosa, criada pelo antropólogo cultural Marvin Harris, é verdadeiro que, superficialmente, as pessoas em algumas sociedades consomem carne de vaca e veneram porcos como objetos religiosos sagrados, enquanto outros consomem carne de porco como alimento e adoram vacas como objetos religiosos sagrados. Em nível concreto há variedade cultural. Entretanto, a carne de vaca e a carne de porco são proteínas animais (como são os cães, as baleias, e os macacos), porcos e vacas são entidades animadas (como são Buda, Alá, e Jesus), e as pessoas em toda sociedade humana consomem proteínas animais e veneram entidades animadas (como eu expliquei em um post anterior[3]). Neste nível abstrato, não há nenhuma exceção, e todas as culturas humanas são a mesma. Não há nenhuma variabilidade infinita na cultura humana, no sentido de que não há nenhuma cultura em que as pessoas não consumam proteína animal ou adorem entidades animadas.

Para usar um outro exemplo, é verdadeiro que as línguas faladas em culturas diferentes parecem completamente diferentes, como sabe qualquer um que tentou aprender uma língua estrangeira. A inglesa é completamente diferente da chinesa, nenhuma delas se parecendo com a árabe. Apesar destas diferenças na superfície, entretanto, todas as línguas humanas naturais têm em comum o que o linguista Noam Chomsky chama de “a estrutura profunda” da gramática. Neste sentido, as línguas inglesa e chinesa são essencialmente a mesma, no sentido de que as carnes de vaca e de porco são essencialmente a mesma.

Toda criança em desenvolvimento normal pode crescer e falar qualquer língua humana natural. Não obstante a língua que seus pais genéticos falem, as crianças em desenvolvimento normal são capazes de crescer e terem como língua humana nativa a inglesa, chinesa, árabe, ou qualquer outra língua humana natural. De fato, quando um grupo de crianças cresce sem nenhum adulto para lhes ensinar uma língua, elas inventam sua própria língua humana natural, completa e com gramática. Isto não significa, entretanto, que a capacidade humana para a linguagem seja infinitamente maleável. As crianças não podem crescer e falar uma língua não natural como o FORTRAN ou a lógica simbólica, em que pese o fato de que estas são, de longe, mais lógicas e mais fáceis de aprender do que qualquer linguagem natural (nenhum verbo irregular, nenhuma exceção às regras). Sim, uma criança em desenvolvimento normal pode crescer e falar qualquer língua, visto a língua ser um produto da evolução humana, não uma invenção recente de cientistas da computação.

Pierre van den Berghe, o sociobiólogo pioneiro da Universidade de Washington, coloca melhor a questão quando diz:

Certamente nós somos únicos, mas nós não somos únicos em sermos únicos. Cada espécie é única e evoluiu sua originalidade na adaptação a seu ambiente. A cultura é a maneira humana única de adaptação; mas a cultura também evoluiu biologicamente.

Apesar de todas as diferenças de superfície, há somente uma cultura, porque a cultura, como nosso corpo, é um produto adaptado da evolução humana. A cultura humana é um produto de nossos genes tanto quanto são as nossas mãos e o pâncreas.

Biologicamente, seres humanos são muito fracos e frágeis; nós não temos caninos desenvolvidos para combatermos os predadores ou para caçarmos nossas presas, nem pêlos para proteger-nos do frio extremo. A cultura é o mecanismo de defesa com que a evolução nos equipou para nossa proteção, de modo que pudéssemos herdar e então passar adiante nosso conhecimento sobre fabricação de armas (para combatermos os predadores e caçarmos as presas) ou sobre vestuário e abrigo (proteção do frio extremo). Nós não precisamos de dentes afiados ou de pêlos porque nós temos a cultura. E tanto quanto -- apesar de algumas diferenças individuais menores -- todos os tigres, que têm mais ou menos os mesmos dentes afiados, e todos os ursos polares, com mais ou menos os mesmos pêlos, todas as sociedades humanas tem mais ou menos a mesma cultura. Os caninos são um traço universal de todos os tigres; o tipo de pele é um traço universal de todos os ursos polares. Assim, a cultura é um traço universal de todas as sociedades humanas. Sim, a cultura é um universal cultural.




Pesquisa e tradução: Marcos Brunini (marcosbrunini@yahoo.com.br)
São Paulo – SP, janeiro de 2009.
[1] There is only one human culture, disponível em http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200807/why-are-almost-all-criminals-men-part-i, acessado em 12/01/2009

[2] Satoshi Kanazawa, psicólogo evolucionista na London School of Economics and Political Science e coautor (com Alan S. Miller) de Por Que Homens Jogam e Mulheres·Compram Sapatos - Como A Evolução Molda Nosso Comportamento. Rio de Janeiro: Prestigio Editorial. 2007.

[3] http://blogs.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200803/why-do-we-believe-in-god-ii

A BELEZA QUE ATRAPALHA

por ronaldo duran*


QUERIA que tudo fosse fruto de minha cabeça tola. Que esta presunção soasse como algo insano em vez de me espetar de forma tão realista. Sim, a gente vive buscando uma razão para justificar os passos, explicar sucessos e fracassos. E o fracasso de fazer parte da minoria da galera que não entrou na faculdade almejada é suficiente para eu achar uma razão. Todo mundo comemorando e eu aqui na fossa. Falta de estudar, de me aplicar para valer? Sim. Por quê? É a beleza que atrapalha. A beleza que me mima, desviando-me dos propósitos que um vestibulando deve ter em mira.


COMO a beleza pode atrapalhar? Me desculpa a presunção. Porém só sendo bela para responder. Já dizia minha avó que tudo em excesso faz mal. O que ela diria de ser assediada pelos rapazes, mimadas por eles? E certos professores mulherengos, ser tão paparicada que deixa tonta? E as professoras que diante de mim sei lá por que se sentem magoadas, e tentam ser superiores com testes que parecem mais difíceis que a média?


OLHA como estou zonza. Nada a ver culpar os professores. Eu que sou responsável pelo péssimo desempenho. Assumo que gosto de ser paparicada, ter os meninos me olhando, disputando minha presença, fazendo meus exercícios de física e matemática, escrevendo minha redação, ou, ao menos, me dando dicas mastigadas, quase que me deixando ociosa na classe. Bem, não tão ociosa. Dou atenção a seus instintos e aos sentimentos platônicos. Sorrio, concedo o privilégio de lhes dirigir a palavra. Gostam de sentir meu perfume, de olhar meu rosto. Enfim, levando-os ao delírio e não raro causando briga para ver que domina minha atenção.


SEM contar as horas que gasto atendendo aos suplicantes convites para ir a lanchonetes, tomar sorvetes, cinema. E se meus pais não fossem caretas, provável que eu seguisse para as baladas.
Meu sonho é fazer engenharia civil ou arquitetura. Os carinhas dizem que eu estou delirando, aquela coisa de loira burra. Mas eu vou dar a volta por cima. Tá, nada de me retalhar o rosto para anular minha beleza. Claro que meu ego quer ser paparicado. Quem não quer? Contudo, quero ter uma profissão. Ser respeitada. Há sempre um modo para conciliar situações conflitantes, e nós mulheres somos peritas nisso. Vou rachar de estudar. No que minha beleza pode ajudar? Atrair um gato nerde e junto a ele eu pegar as manhas da matéria. Vou provar a mim mesma que não sou só um rostinho bonito.


MINHA Guaratinguetá, talvez eu tenha que te deixar. Mas um dia eu volto formada e pretendo embelezar você ainda mais, desta vez com projetos.


E não vou demorar. Catarei meus cadernos e anotações, diminuirei às idas aos shoppings, ao cinema, às praças de alimentação. Vou trocar o beijo na boca dos gatos pelo papel com as resoluções de problemas de matemática, claro, sempre que eu calhar de acertar.


* romancista, contista, colabora com crônicas em jornais. Autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! disponível na http://www.corifeu.com.br/

OS DIREITOS HUMANOS



por Ivan de Carvalho Junqueira*

Ao presente, muito em voga se encontra a temática dos direitos humanos que, diversamente do apregoado por alguns, carecedores da melhor informação, não se prestam à mera “proteção de bandidos”, protagonistas de crimes, se maiores de dezoito anos ou, de atos infracionais, quando ainda adolescentes, dirigindo-se a todos, sem distinção.


A ardorosa luta pelos direitos humanos é, em termos históricos, recente, desenvolvendo-se, com mais precisão, ao final da 2.ª Guerra Mundial, pós-Holocausto, no terrível instante da desconsideração absoluta de cada ser humano, em sua essência, enquanto indivíduo, visto quão objeto, transformado em mercadoria, enfim, “coisificado”, e à seqüência de regimes totalitários, em especial, na América Latina e Europa, pela não aceitação de suas atrocidades. Caminhou-se, pois, rumo à chamada internacionalização dos direitos humanos.

Dispomos, hoje, de uma infinidade de documentos entre: Declarações, Tratados, Pactos e leis, e de inestimável valia, sem dúvida. Em que pese o brilhantismo disto, indiscutível, apenas isto não nos basta se, à prática, não observarmos, como transparece, seu exercício.Atualmente, já alertara Norberto Bobbio em sua magnífica obra: “A era dos direitos” não mais se discute acerca da importância de tais perspectivas, vez que indispensáveis a qualquer pessoa, sendo mesmo: irrenunciáveis, indivisíveis, imprescritíveis e inalienáveis, dentre outros caracteres. O direito à vida, à igualdade, à alimentação, à saúde, à educação, de acesso à terra, à liberdade sexual, política e religiosa, ao trabalho e ao lazer, são, em conjunto a uma série de outros, questões prioritárias neste contexto. Daí porque independem de qualquer fator, tais como: cor, sexo, idade, filiação, origem, condição socioeconômica, privado ou não de liberdade etc.

A propósito, no que tange aos presos ou aos adolescentes autores de ato infracional e que, após o devido processo legal, asseguradas todas as formas plausíveis de garantias e de defesa, venham a ser julgados e, pois, responsabilizados, sendo-lhes imposta, aos primeiros, uma pena e, aos últimos, uma medida de natureza socioeducativa, não deixam os mesmos de fazer jus em face do mais que exigível respeito aos seus direitos humanos. Isto não quer dizer, em absoluto, eventual concordância com o que fizeram ou praticaram. Não ratificamos o cometimento de um homicídio ou, no caso do jovem, de ato equiparado a tal delito. Enxergamos, a contrario sensu, inúmeras outras formas, pacíficas, à resolução de conflitos. E assim há de ser, pois, vivemos em coletividade, indissociavelmente e, desde o nascimento, ao desenvolver histórico do Estado e das sociedades, vinculados somos a um pacto social. Atitudes estas, de violação ao direito de outrem, a também nos causar espanto. O poder do Estado, entretanto, não é ilimitado.


A favor dos direitos humanos, porém, busca-se, não obstante algumas conquistas, a obtenção de mecanismos bastantes assim tendentes à sua concreta implementação, trazendo-os da teoria para a prática, transformando sonhos em realidade.


Inúmeros textos, tanto pátrios como alienígenas, conforme já mencionado, vêm a enunciar o caráter e o valor primordial então adstrito aos direitos humanos, o que não impede, a despeito disto, uma triste e cotidiana desconsideração, sendo inúmeros os exemplos. Habituamo-nos, infelizmente, a assistir violações de toda ordem, quão fosse uma notícia qualquer, desvestida de importância que, com o passar de uma semana ou dez dias, caem no esquecimento: Yanomami, Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Eldorado dos Carajás, Corumbiara, Baixada Fluminense, moradores de rua em pleno centro de São Paulo... são apenas alguns aliados a tantos outros lamentáveis episódios de profundo desrespeito à pessoa humana, ainda que à procura de legítimos direitos.

Sem contar quando da violência expressada, diretamente, contra pessoas. Não nos esqueçamos de Martin Luther King e, no Brasil, Chico Mendes, índio Galdino, Edson Neris, Dorothy Stang... todos, covardemente, assassinados.À égide da economia de mercado em que se privilegia bem mais o lucro em detrimento da própria vida, assumindo o capital valor maior que o de um ser humano, tem-se relegado a um plano bastante pequeno e inferior, insignificante mesmo, várias de suas prerrogativas, embora fundamentais.

À realidade, in concreto, não mais que cinco indivíduos, hoje, possuem patrimônio equivalente ao de 600 milhões de pessoas sendo que, duzentas e poucas seletas famílias contam com renda equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto) de nada menos do que metade do globo.

Mas não precisamos ir tão longe... Basta olharmos, brevemente, para cada rua e esquina das pequenas e médias as grandes cidades, no deslocar e retornar da casa ao trabalho ou, quem sabe, no passeio dominical com nossos filhos e amigos.


A batalha é árdua, não restam dúvidas...


Então, persistamos na luta!


* Bacharel em Direito e educador na Fundação CASA/SP. Seu mais recente livro publicado é: “Do ato infracional à luz dos direitos humanos”.