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sábado, 12 de setembro de 2009

iniciativa na escola - profa. sandra martins modesto*


O SEGREDO DOS AMULETOS





O projeto que apresento para vocês é a criação de um livro de ficção, que é o primeiro de uma série de 10 volumes, mas não só um livro de ficção, é um trabalho de alunos da 7ª série do Ensino Fundamental da Rede Pública de Ensino, sob a minha supervisão. O que lhe apresento é um trabalho desenvolvido por quatro adolescentes na faixa etária de 12 a 14 anos, que escrevem simultaneamente roteiro para desenvolver a mesma história, os mesmos personagens e os mesmo critérios de escrita para criar um livro.


São quatro alunos, o que para a maioria vai parecer estranho, mas esse é realmente um trabalho a oito mãos. Reunir quatro mentes, pessoas distintas com idéias e formas de escrever diferentes. Desta forma pareceria difícil conseguir uma história única e coerente, no entanto, esta façanha rendeu um livro com 180 paginas e continua a render a seqüência dos volumes, tendo hoje até mais um aluno envolvido no processo.


Para escrever o livro os alunos se reuniam na escola e em horários extra-escolares, em sua residência ficava o trabalho de escrita individual. O processo de confecção do livro se deu com discussões, desenhos (story board), encenação e a partir disso era construída uma seqüência para a história, tudo isso antes que ela fosse para o papel, então dividimos quem ia escrever o quê, assim eram produzidos mais de dez capítulos de uma vez. Os alunos escreviam os capítulos a mão ou digitados e nós nos reuníamos para costurar e revisar a história. O livro que estou falando foi escrito em três rápidos meses, já com partes do segundo, sendo escritas simultaneamente.

Apresento-lhe a sinopse do livro:


Uma vida pacata com seu pai, amigos e amores. Quem não sonharia com isso?
Quem diria que o destino do mundo estaria nas mãos de um simples garoto de 11 anos, que se descobre portador de um amuleto capaz de destruir ou salvar o mundo.


Marcelo começa a fazer inúmeras descobertas sobre seu próprio poder e sobre sua família, mas antes que ele possa novamente ser feliz terá que travar uma batalha com um homem que é o “Senhor do mal” e talvez enfrentar quem ele menos espera... Será que esse menino controlará todo esse poder?


O segredo dos Amuletos – O começo, conta o início da trajetória de alguém que se transformará em um grande herói.
*Profa. Sandra Martins Modesto leciona na EE Profº. Sérgio da Costa, em São Paulo, Capital.


Me predisponho a dar maiores informações sobre todo o trabalho, seja através do Blog: http://osegredodosamuletos.zip.net, pelo e-mail: sandramartinsc@uol.com.br ou pelos telefones: (11) 2996 7789 c/ Sandra (11) 22673376 c/ Luan

domingo, 6 de setembro de 2009

conto - ronaldo duran


A CAPA DA AFRODITE*


Sinceramente nem ela mesma compreendia por que tamanha apreensão. Dos amigos, de alguns parentes e ex-namorados, o apoio parecia unânime. Ninguém a repreendeu quando comentou sobre o convite.


_ Se o cachê for bom, minha filha, pose _ era a opinião da tia Neuza.


Tia Neuza da pá-virada, tipo hippie neoliberal. Complicado se espelhar nela. Mas se os demais pouco ou nada diziam em oposição. Um martírio decidir-se sozinha.


Os ex-namorados davam a maior força. Pena que estava sem companheiro há dois anos. Será que se estivesse namorando o sujeito aceitaria numa boa? Provavelmente não. É o que lhe diz o sexto sentido, desenvolvido diante do estilo bem possessivo dos rapazes de Maringá.


Jacqueline Began Khour, dezoito anos, faltando um mês para atolar os pés nos dezenove, estava num dos maiores impasses de sua vida. Recebera um convite, de seu empresário, para posar nua na Afrodite, edição de março de 1998.


_ E isto é o começo, fofura! Se gostarem da sua carcaça, é quase certo que consiga lugar numa revista estrangeira. Tudo depende do primeiro trabalho.


As palavras vinham de Rafaelo De Poli, agente de modelos. Bem-sucedido, rodava o mundo. Diante dele, que mulher, por mais segura e experiente, não se sentia fragilizada, carne exposta no açougue? Rafaelo nunca encostava a mão nas modelos, era gay. Em contrapartida, o olhar que cravava nas coitadas queimava que nem óleo fervendo.


A jovem paranaense nunca havia se esbarrado com uma raposa da nudez mercantilizada. Natural que o constrangimento a envolvesse.


A proposta é um divisor de águas em sua carreira.


Subiu na passarela aos nove anos. Um desastre. Seu forte seria posar como capa de revista. Quantas capas feitas? Perdeu as contas. Na idade de dez a treze anos, as fotos angelicais fizeram muito sucesso (realçando os cabelos bem pretos e uma carinha de leite). Os traços delicados do rosto chamavam atenção para os produtos infantis.


Dos catorze aos dezoito anos, mudou de atuação. Vieram os perfumes, absorventes, chocolates, desodorantes, dia dos namorados. Sem faltar os anúncios para vestibular e festas em rodeios.

Nunca posou nua. Durante os seis primeiros anos de trabalho, os pais sequer permitiam que algum fotógrafo avançadinho a saboreasse em peças mais decotadas.


Duas semanas atrás, veio a bomba.


Cândido Basbalho Silva, o chefe de Jacqueline, assim que Rafaelo encerrou a fala, acrescentou:


_ Você está muito conhecida. O mercado é rotativo, requer coisa nova, cara nova. O consumidor se cansa de ver o mesmo rosto todos os dias, associado a um produto. O que é repetitivo fica monótono na propaganda. Veja, mesmo a Xuxa já deu no saco. A rainha dos baixinhos se segura porque é multifacetada. Banca de empresária numa hora; noutra, de apresentadora; às vezes, agente humanitária; noutra, de garota propaganda. Se ficasse só exibindo o corpo pra vender, quebraria. Mas você não é nenhuma Xuxa. Vai ter que diferenciar.


Jacqueline embirrou, único meio de mostrar que não estava afim da proposta.


_ É para teu bem. Quero te ver brilhar. Ora bolas! Quantos rostinhos bonitos entram por aquela porta toda semana? Você mesmo vê. E eu nunca te deixei na mão, sempre quebrando galho. Lembra-se quando o papel de criancinha inocente já não caía bem, eu te conservei. Outro te dispensaria.


Quanto você ganhará, aproveitador?”, pensou Jacqueline. Acostumada com as manobras do empresário, sabia que boa ação é sinônimo de enganação. Tudo tinha preço.


_ Então, vai pegar ou largar? _ Cândido intimou.


Jacqueline teimava no silêncio.


Basbalho, vendo que a resposta viria a custo e como estava prestes a viajar, concluiu:


_ Vou ficar uma semana em Curitiba. Terá tempo de sobra para pensar. Seu contrato venceu ontem. Se aceitar posar, além da grana que vai encher teu bolso, eu prometo que o renovo por mais um ano. Você viu que nesse ano tirou meia dúzia de fotos, mas nem por isso deixei de depositar todo santo mês teu salário. Leve isto em consideração.


Chegou em casa meio grogue. Estava em conflito. Conversou com a mãe durante um bom tempo. Óbvio que a notícia arrancou de dona Regina Began Khour arrepios de apreensão. Através de palavras brandas, a mãe dizia que se dependesse da vontade dela a filha descartaria a proposta. O pai, hora mais tarde, emitiria idêntica opinião, com tom mais explícito.


_ Seria um grande erro aceitar. É assim que os desavergonhados começam. Quando fotografias decentes não agradam mais, querem desgraçar a vida das pobres...


A filha, constantemente tão contrária às palavras paternas, desta vez meio confusa, até as considera sensatas.


Por que os pais de Jacqueline, embora revoltados com a notícia, não a impedem de cometer o que classificam de falta grave? Simples: acreditam que perderam direito de mando.


A vontade soberana da filha teve início a partir do momento em que passou a receber os bons salários pelos primeiros serviços como modelo.


Se houve uma certa resistência no começo, meses mais tarde os pais a tratariam como o orgulho da família. Foi uma alegria inenarrável quando um vizinho, há oito anos, trouxe a primeira revista. Na capa, pequenina, olhos castanho-claros, cabelos negros e compridos, pele muito branca e uma denguice pouco comum aos descendentes de imigrantes europeus instalados no interior do Paraná.


Devido à melhora do padrão de vida da família, através da grana que o sucesso da filha arrecadara durante anos, os pais se inibem de promover qualquer retaliação à sua carreira profissional.


Os amigos se dividiam. Havia quem estimulasse e quem achasse inconveniente.
Nos pais, doía a impotência de não poder fazer valer a vontade de impedir a decadência escancarada.


Durante um almoço com a tal tia da pá-virada, haveria um xeque-mate para a situação conflitante.


_ Pose minha filha... É supernormal. Antigamente era reservado às mulheres da vida se aventurarem nesse terreno. Hoje, cocotinhas das classes alta e média disputam aos tapas quem tira a roupa primeiro. Quem tem um corpo mais ou menos em cima deve aproveitar a mão que a sorte estende. Mesmo porque a concorrência cresce a cada dia. Se você não posar, outra o fará e levará a grana.


_ Mas...


_ Pare de recear. Veja nas academias, a moda do corpo sarado. As mulheres que não tiveram a sorte de possuir seu corpinho só faltam botar os bofes para fora de tanto malhar; comida natural, dieta, e por aí vai. Até as famosas, que posaram duas ou três vezes, com medo da concorrência, se submetem a retoques, tirando bunda, colocando seio, rasgando rosto, implantando cabelo... Que loucura! Vá menina. Aproveita o que ganhou de graça da natureza e faça seu pé-de-meia. Ah, se fosse comigo!


Aceitou. Não muito pelos conselhos de Neuza. Aceitou, aceitando. Como o funcionário que cede suas férias a pedido do patrão, mas sem qualquer vontade.


Um sucesso. Trezentos mil exemplares vendidos em duas semanas.


_ Isto, garota, ficou uma maravilha! _ Rafaelo dava pulos de satisfação, elogiando as fotos.


_ Melhor, impossível _ Basbalho aplaudiu.


Vendo a exaltação de Cândido, Rafaelo emitiu opinião mais perfeccionista.


_Para começo está bom. Mas quando for para gringos, a gente vai ter que caprichar.


Cândido deu uma cotovelada no sócio. Conhecendo Jacqueline, sabia que estaria extremamente envergonhada diante de Rafaelo, que olhava e manipulava as fotos despudoradas de maneira tão desconcertante.


Rafaelo, alçado por um resquício de sensibilidade, aceitou a advertência. Cessou a brincadeira. Resolveu ir direto ao assunto: a grana. “Agora quero ver se a vagabunda terá tanta frescura”, vociferou consigo o infame empresário.


_ A senhora sabe quanto ganhou?


_ Nem imagino.


_ Chute. Quanto? Leve em consideração que a revista roda o Brasil de norte a sul.


_ Cinqüenta mil? _ arriscou sinceramente Jacqueline.


_ Bobinha... Se o Basbalho fosse mau caráter ficaria rico às suas custas. Cinqüenta mil reais hein?

Cândido quis seguir a brincadeira.


_ Trezentos e cinco mil reais... Está bom para você?


_ Claro.


Rafaelo fez o cheque e depositou em suas mãos.


_ Isto é só o começo.


_ Como assim? _ perguntou Jacqueline.


_ Se tudo correr bem, mês que vem teremos novidade. Outro convite.


Puxa, trezentos mil. Dava para fazer muita coisa. Jamais recebera tamanha quantia. Houve uma vez, 1993, que ganhou um gordo cachê. Coisa de trinta mil. Tinha sido o maior prêmio.


Jacqueline caminhou do estúdio em direção ao estacionamento. Desligou o alarme do carro, nada menos que um Peugeot 97. No porta-luvas jazia a revista. Podia pegar no estúdio, mas não o fez. Comprou na banca. Apesar de normal para uns, a verdade é que o marinheiro de primeira viagem tem lá suas apreensões quando está prestes a ver sua nudez estampada e sujeita ao julgamento do grande público.


Logo cedo, apareceu numa banca distante de sua casa e nunca antes visitada. Buscava o exemplar. O jornaleiro, tão preocupado em dar atenção à clientela assídua, sedenta por seus jornais diários, nem notou a pequena. Da parte dos clientes, houve quem lhe passasse uma cantada, tipo lobo faminto. O garanhão só não gostou da resposta da garota, nem do riso dos circundantes.


_ Vá procurar sua turma _ bradou elegantemente Jacqueline.


Minutos mais tarde, à direção do confortável importado, passeava pelas ruas de Maringá. Os pontos turísticos, as pessoas na rua, o trânsito complicado em certos trechos, os pedintes, os mendigos, os ônibus carregando os trabalhadores, nada interessava. Apenas as revistas dependuradas nas bancas chamavam sua atenção.


Impossível esconder a recaída ao enxergar seu pôster. O pudor latente a atormentou. Se pudesse, sairia do carro e, arrancando-o, faria pedacinhos.


Dali a uma hora, em casa, meio desconcertada, começaria a receber os telefonemas. Algumas amigas elogiando, falando que estava bonita, e que tudo ia dar certo. Houve outras que nem deram as caras, sequer ligaram. O radicalismo presente forçaria a perda de amizades de longa data.


À tarde, um telefonema grosseiro. Com certeza algum conhecido de uma amiga ou ex-amiga sua. Só podia ser. Primeiro, porque a voz era estranha; segundo, ele estava com seu número de telefone.


_ Alô, de onde fala?


_ Aqui é a Jacqueline.


_ A gostosa que saiu nua? Comprei a revista. Gostei das curvas. Olha, você já está fazendo programa? Quanto é?


Ela desligou.


Doeu pra caramba.


Seria o início do tumulto que duraria meses. Passou a evitar e ser evitada no bairro em que morava. Os parentes, alguns, nunca mais voltariam a pisar na casa dos seus pais. Dois dos ex-namorados, diante dos colegas de farra, abusaram de rótulos pejorativos, humilhando-a.


Quem queria namorá-la? Ninguém naquela cidade. Os telefonemas escandalosos, atirados e maldosos, choviam quase todos os dias. Eventuais pichações nos muros da vizinhança aviltavam sua pessoa.


Mudou-se com a família para Curitiba.


_ Posar é apenas a ponta do iceberg. O obstáculo maior é ter de enfrentar velhos amigos com seus preconceitos ocultos ou escancarados _ disse uma colega de profissão, ao ouvir as lamentações de Jacqueline.


Sofreu por um bom tempo.


Em dezembro de 1998, viajou para a Europa, a fim de fazer novas fotos para outra revista masculina. Longe do ninho, a coisa ficou mais fácil. O cachê ultrapassou o primeiro milhão de dólares.


*Ronaldo Duran, romancista, escreve em jornais. Este conto é do livro SONHAR É BOM, VIVER É MUITO MELHOR.


sábado, 5 de setembro de 2009

nelson valente - educação





















fonte da imagem: www.vivercidades.org.br/publique_222/web/cgi/...


AS NORMAS EDITADAS NEM


SEMPRE SÃO REDIGIDAS COM


A NECESSÁRIA CLAREZA*













A proposta deste artigo surgiu através da observação do crescente número de especialistas em educação, educadores e de futuros licenciados não conseguem entender, interpretar pequeno texto após a leitura sobre legislação educacional: Leis, Decretos,MP, LDBEN,Resolução, Indicação, Deliberação, na História da Educação Brasileira.




Os legisladores em todos os níveis nem sempre são bastante felizes. As normas editadas nem sempre são redigidas com a necessária clareza. Daí surgirem, não poucas vezes, interpretações contraditórias sobre o mesmo texto. É bem verdade que as leis propriamente ditas não são muito numerosas, mas os regulamentos, constituídos principalmente de decretos, resoluções, portarias, são abundantes.




Para interpretação correta de um dispositivo legal, devemos nos servir de várias modalidades de análise. Citamos algumas: literal ou gramatical, histórica, contextual, sistemática. A boa interpretação deve ser buscada na combinação dos vários meios apontados. A interpretação deve ser buscada na combinação dos vários meios apontados. A interpretação, por um só aspecto, via de regra, conduz a conclusões defeituosas e errôneas.




O que nos interessa neste artigo é dar uma contribuição do nosso sistema de normas legais, que venha enriquecer a educação tão carente de pesquisa especializadas nesse importantíssimo ramo dos estudos pedagógicos. O funcionamento da escola, o desenvolvimento do programa educacional, a atuação dos professores ou do especialista de educação estão relacionados e dependentes, em todos os seus aspectos, de normas legais, específicas ou gerais.




No Brasil, essas normas têm hierarquia que vai desde a Constituição Federal até o simples comunicado. Assim, para o desempenho de suas funções, principalmente os especialistas de educação necessitam no mínimo de conhecimentos do suporte da estrutura do sistema. A legislação educacional sempre foi tema de preocupação para diversos segmentos da organização e administração escolar do sistema educacional brasileiro.




Sob os aspectos de organização e administração escolar, a legislação é ainda importante porque traduz a filosofia e a política educacional subjacente a cada país. A lei, entendida como forma normal pela qual o Estado estabelece regras de convivência dotadas de significação imperativa, procura assegurar coesão e equilíbrio de todo o corpo social.




Segundo LOURENÇO FILHO (1962), a legislação não constitui somente fonte de ação, de organização e de administração, pois possui também sentido de instrumentação, isto é, passa a representar recurso prático para a estruturação e a gestão de serviços. Daí a necessidade de os componentes da legislação se constituírem num corpo com unidade lógica, em perfeita coerência, respeitando o princípio da não contradição.




A educação formal se realiza através do sistema do ensino cujos componentes principais são: o fato, o valor e a norma. Na sequência lógica, em termos jurídicos, primeiro deve existir o fato, que uma vez generalizado torna-se passível de "normatização", o que se exerce através da legislação. Entretanto, isto não é usual no âmbito da legislação escolar.




Geralmente, ela precede os fatos. Tem-lhe mesmo, uma anterioridade tão grande, que resulta na necessidade de revestir-se de enorme elasticidade ou, quem sabe, "indefinição", para permitir-lhe ajustar-se aos fatos que, espera-se, deverão surgir tal como foram pensados na legislação. Evidentemente, a realidade está aí a demonstrar o contrário Sob o ponto de vista prático, a legislação, antes de tudo, orienta a ação administrativa, estabelecendo diretrizes gerais de trabalho e definindo os limites sobre o que decidir, determinando fronteiras e o alcance das decisões ou das diretrizes decorrentes da ação administrativa.




Observa-se que, apesar da uniformidade legislativa e da ação legal fiscalizadora da inspeção e supervisão, a padronização das escolas é aparente, pois elas diferem em inúmeros aspectos. Desse modo, a educação passa a ser uma atividade estritamente controlada por leis e regulamentos e os organismos como o Ministério de Educação e Cultura e Secretarias de Educação, reduzem-se a órgãos de registro, fiscalização e controle formal do cumprimento de leis e regulamentos.




Sua função é dizer se a educação é legal ou ilegal, conforme sejam ou não cumpridos os prazos e as formalidades, fazendo com que a legislação passe a ter antes, um caráter punitivo do que reforçador.







*Nelson Valente é professor universitário, jornalista e escritor.


Contato: nelsonvalenti@hotmail.com

domingo, 30 de agosto de 2009

conto - ronaldo duran

fonte da imagem: ante-et-post.weblog.com.pt/2007/01/a_navegar_...




LETRAS DESVALORIZADAS*


O homem é bicho inconformado com a regra do jogo que a vida impõe. Já vimos formiga alcançar a lua? Comando de um formigueiro, apoiando-se numa suposta legitimidade, ditar ordens no formigueiro vizinho? Cavalo, boi ou vaca se meter à besta em bulir com a camada de ozônio?


O bicho humano mexe e remexe com quase tudo. Gordo, sonha emagrecer. Magro, espera tomar corpo. Branco, se irrita, e quer amorenar. Negro, pinta-se de branco. Calvo, não vê a hora do implante... Os genótipos perdem para as tintas artificiais que colorem pele e cabelo nos dias atuais.


Assim como nas demais espécies da natureza, na humanidade há os supertranqüilos contrastando com os ativos em demasia. Extremos humanos. Quanto aos primeiros, na ótica dum observador pouco atento aos pequenos detalhes, juraria tratar-se de pessoas conformadas.
Conformado? O ser humano? Nada mais errado. A menos que esteja morta, não há pessoa totalmente conformada.


Destino, Deus, espíritos do além e demais forças ocultas do universo largaram mão de tentar compreender esta espécie esquisita que rasteja sobre a Terra. Viram que é trabalho perdido.
Passear na filosofia sobre o que é o homem nunca surte o mesmo efeito que apresentar o simples dia a dia duma pessoa.


Já que se trata de inconformados, veremos um.


Robson de Braga Araújo quer ser valorizado como escritor. Até aí, nada anormal. Cada um tem seus sonhos.


Aqui o sonhador beira o poço da obsessão.


Robson leva sua meta até o limite do delírio. Ainda que seja um delírio letrado, acadêmico e crítico. O delírio é alcançar a fama a qualquer custo. O ruim é que o reconhecimento foge dele como alguns parlamentares se esquivam da CPI (seja qual CPI for, desde que ponha em dúvida seus atos e patrimônio).


Manhã de quarta-feira, mês de julho de 1996. A cidade de Taubaté, interior do Estado de São Paulo, despertava da mesma maneira que o fizera no dia anterior, a despeito do que possam falar os amantes da Física.


Estamos na periferia, porque Taubaté também tem sua periferia. A casa é aquela desprezada pelas pessoas esnobes e sonhada por milhares de miseráveis que encaram um banco frio duma praça, um canto duma calçada encostado nalgum estabelecimento comercial; únicos pontos que costumam estar disponíveis numa metrópole, salvo se o indigente conseguir uma vaga nessa ou naquela favela.


Robson olha para o neurótico despertador, que berra sem cessar. Marca seis e meia. Reclamar do quê? Ora, ele que preparou o encrenca para tocar nesse horário. Tem mais é que agradecer. O que se quebrou na semana passada, ora, era um tal de perder hora.


_ Vamos, homem, vamos... A hora é esta.


Não é o despertador que dirige estas palavras. Sua consciência, em meio ao torpor, é que grita.
Bem que quis dar ouvidos ao chamado. O cansaço é que não permitiu. Dorme por mais uma hora.
De repente, apóia-se na cama. Espreguiça. Queria que o mundo acabasse, uma bomba caísse, ou coisa pior. Tudo, menos deixar as cobertas.


Toca com os pés o chão gelado. Procura os chinelos. Malditos. Nunca os acha onde os deixa na noite anterior. Só que não saberia dizer precisamente em que lugar os deixou. Apanha-os, um pé no sul, outro no norte. Nem que quisesse conseguiria atender a antiga solicitação da mãe, dona Eunestina.


_ Evite pisar no chão gelado. Faz um mal danado para a saúde.


Dona Eunestina cumpria seu papel de mãe zelosa. Temia o resfriado crônico do filho. Embora que esporádico, desde tenra idade Robson não tinha sossego. A luta já dura mais de três décadas.
Num passe de mágica, vestira a surrada calça jeans, a camisa sem passar. A refeição matinal vinha com o chocolate em pó misturado ao leite e uma banda de pão amanhecido, passada na manteiga. Café dava muito trabalho, até os solúveis. Bebia a rodo durante o expediente, então para que encanar?


Os dentes ficariam sem escovar. Lá no cartório emplacaria a higiene da boca. Em seu armário, luziam sabonetes, pasta e escova de dente.


O sol duma manhã de inverno, vez por outra, irrita os olhos dos que saboreiam as recomendadas oito horas de sono. Imagina que estrago faz com os que conservam o mau hábito de imitar morcegos e corujas, trocando o dia pela noite. Robson, dedicado amante das letras, encontra oportunidade para rabiscar seus poemas no silêncio e na hora vaga da madrugada.


Chegou ao cartório atrasado. O patrão, ressabiado, nem faz cara feia. Se adiantasse! O único consolo era descontar no fim do mês. E não estava disposto a abrir mão do recurso.


Quem gosta de perder? Nem o atrasado. Um dia a indignação explodiu. O atrasado, de holerite em punho, tomou coragem e foi reclamar.


_ Mas seu Antônio, tudo isso de desconto?


_ Que fazer? São os minutos atrasados.


_ Tudo isso? _ o empregado, com expressão sofrida no chupado rosto, monologa a pergunta, sem esperar uma resposta favorável. Sabia que estava errado.


_ Somei vinte minutos num dia, quinze noutro... Cheguei a esse valor _ disse o patrão com os olhos fixos no papel, no qual listava os mais de vinte dias que sofreram algum tipo de desconto.


_ O senhor sabe que moro longe...


O advogado Antônio Queiroz, proprietário do cartório, sorriu meio sem graça. Com mais anos de advocacia do que Antônio Magalhães de política, ele sabia reconhecer um bom caráter na pele de Robson. Funcionário aplicado. Não fazia corpo mole no serviço. Nem era de faltar.


Procurou contornar a atitude arbitrária.


_ Sei de tudo isso... e muito mais... O que não posso é abrir exceção para alguém. Se não cobro seus atrasos, é bem capaz que daqui a algum dia todos passem a chegar depois das dez...
Exagerava. Mas mesmo exagerando todo empregador julga ter razão. E quem é que vai destituí-lo dela?


Robson bate em retirada, volta para seu posto. Reconhecia a perda de tempo.


Após tirar a capa protetora da máquina profissional, correu a Henrique para receber a papelada acumulada. Datilografaria direto e reto, sem parar, até a hora do almoço. Se bem que ir ao banheiro, fumar um Hollywood, molhar a goela com um cafezinho, café que o Guilherme, vulgo Zé Beiçudo, trazia do bar & restaurante, eram de lei, ações constituintes do expediente.
O dia no cartório era de cão. E dos raivosos. O cristão tradicional ali enxergaria a imagem do inferno dantesco. Nem faltando figuras carimbadas como a do diabo. Este na pela do Dr. Antônio Queiroz.


Que mais pensar face àquela fisionomia extravagante? Bigode espesso, meio cinza pela idade, meio amarelo pelo hábito do charuto; calva pronunciada no topo da cabeça; raspa de cabelos brancos acima das orelhas; as bochechas que pareciam ferver, dado o vermelho constante na hora de maior movimento no cartório.


O diabo não reina solitário. A clientela doutro lado do balcão seria os anjos decaídos. Isto quando não ocorria de um ou outro mais atirado adentrar a área que deveria ser exclusiva aos funcionários, no intuito de tornar suas exclamações mais veementes, aterrorizadoras.


A lógica diária é a gritaria. Caras irritadas diante da espera. Taxas contestadas antes de quitadas. O doutor, algo sensível com as pessoas, passa por bruto quando o assunto é ganhar dinheiro ou evitar perdas. O número de funcionários, ah, insuficiente para a clientela. A sede de lucro faz com que feche os olhos à realidade.


Coisas de Brasiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiil.


Rotina dos documentos importantes. Firmas que se abrem. Firmas que se fecham. Pessoa física ou jurídica que protesta ou se vê protestada.


O Brasileiro amante do samba encararia o tumulto diferente do cristão tradicional. Veria nele o carnaval jurídico. Os mais variados blocos desfilando pela grande apoteose chamada cartório. Blocos dos golpistas, dos lesados, dos empreendedores, dos associativos...


Datilografar, manusear documentos ultra-ultraconfidenciais. Reconhecer assinaturas, rubricas. Autenticar cópias de RG. CIC. Tirar certidão de nascimento, de casamento, de óbito. Receber o tal CGC. Cópia do estatuto publicado no Diário Oficial, colorido pela lista dos diretores, associados. Registrar ATA de Assembléia ordinária, extraordinária, é sempre bom para evitar falatório.


Os ventiladores de teto que esquentam mais do que refrescam. O ar-condicionado que pifou uma semana depois de instalado, e até agora na assistência técnica. Ainda bem que o inverno ajuda um pouco.


Os calos nos dedos, coisa de praxe. Canetas babadas e mordidas nas tampas. Muitos preferem chupá-las que mascar ponta de cigarro.


Cinco e meia. Robson esgotado. Quem estaria ainda com alguma animação após toda essa tempestade? Ninguém, a não ser um malandro. O malandro que se poupa do esforço bruto, que consegue dirigir o ambiente de modo a não se perder no estresse doentio. Marcos é o malandro. Único que se mostra disposto a passar no Shopping Center, esperar a namorada que trabalha numa butique e encarar duas horas diante duma grande tela de cinema, com saco de pipoca na mão.


Os demais se arrastam para suas casas. Uma boa parte, depois de um banho e a refeição quentinha que aterrissa na mesa de jantar, recuperam o ânimo. Despertam. Dão a devida atenção à TV, ao rádio, durante o resto da noite, aguardando a hora de dormir.


O solitário não goza da mesma sorte. Vai lavar a louça. Pôr algumas coisas em ordem. Desde que a mulher pediu as contas, indo se enroscar nos braços de outro homem, na opinião dela mais pé-no-chão, a casa beira uma república de hippies. Robson só capricha na arrumação quando o filho e a menina vêm visitá-lo.


O pai deposita a pensão das crianças, a quantia que a lei exige, na conta da esposa. Não é pão-duro. Quando necessário, solta mais grana. A esposa e o atual marido, ambos bem empregados, não fariam questão. Mas já que o pai quer, melhor.


Aninha cansou da convivência. Robson teve uma vida familiar boa. Perdeu por intransigência. Retomou um hábito que nutriu na adolescência: o gosto pela poesia. Sem medir as conseqüências, quis se dedicar para valer.


Agarrou-se aos livros com sofreguidão nos fins de semana. Encolerizou a esposa. Sem passeio, sequer assistir ao Faustão, nem futebol, nem brigar, nem nada. Leitura, só. Insuficientes os fins de semana, contaminou as noites, as madrugadas. Ela, solitária. Ele, lendo e escrevendo. Foi a gota d’água. Não nascera para isso. Assim que ele completou um segundo volume de poesias, Aninha pulou fora.


Robson enviou os volumes para as editoras. Duas recusaram logo. Outra, quase seis meses para dar a resposta negativa. As editoras são gentis. Quando recusam o material, alegam: nossa programação de lançamento já está preenchida pelos próximos meses. Mesmo sem interesse na publicação de seu original, agradecemos a preferência. A ausência de palavras explícitas que desqualificam os poemas incentiva o ego do escritor a persistir na labuta, nutrindo a esperança de que um dia a sorte apareça.


“A arte nasce destituída do lucro. Se um dia enriquecer, legal”, é a opinião de Robson. Conservando esta convicção nosso Dom Quixote das letras desvalorizadas dedica-se de corpo e alma. Um martírio que, cá entre nós, fornece algum prazer ao pobre infeliz.


Que importa mulher, tranqüilidade? No cérebro do inconformado há uma substância esquisita. Néctar da confiança, poder da determinação ou vírus da ilusão? Pouco interessa. O que vale é que disputa lugar com o sangue, irrigando sonhos e atitudes.



* Ronaldo Duran, romancista, colabora em jornais. Contato: ronaldo@ronaldoduran.com

sábado, 29 de agosto de 2009

marcos brunini - psicologia evolucionista



POR QUE A EVOLUÇÃO HUMANA PRATICAMENTE PAROU HÁ APROXIMADAMENTE 10.000 anos[1]




Satoshi Kanazawa[2]

O geneticista britânico Steve Jones recentemente fez uma palestra no University College London intitulada A evolução humana acabou? A resposta a sua própria pergunta é sim. Eu concordo com Jones que a evolução humana praticamente cessou, mas por razões inteiramente diferentes.




Seu argumento é o de que a evolução humana, pelo menos nas sociedades ocidentais, parou ou retardou porque poucos homens mais idosos em tais sociedades reproduzem.




O esperma dos homens mais idosos carrega muito mais mutações do que o de homens mais jovens. As mutações fornecem a fonte de variações genéticas em que a seleção natural trabalha. Assim, sem pais mais velhos, sem mutações genéticas, sem evolução.



Jones pode estar certo; entretanto, eu creio que ele está estimando para mais a época em que evolução humana parou. Eu penso que parou faz aproximadamente 10.000 anos, com o advento da agricultura.



A evolução ocupa muitas gerações, sendo a velocidade de evolução de uma espécie relacionada ao tempo necessário para o amadurecimento sexual dos indivíduos da espécie para que comecem a reproduzir (outra importante determinante da velocidade de evolução é a força da pressão de seleção, que, no momento, permanece constante).




A evolução acontece mais rapidamente para espécies de amadurecimento rápido e mais lentamente para espécies de amadurecimento mais vagaroso. As moscas de fruta, as drosófilas, são exemplos de uma das espécies de amadurecimento rápido na natureza, e os seres humanos são exemplos de uma das mais lentas. Leva somente sete dias para que as drosófilas amadureçam sexualmente sob circunstâncias ideais, ao passo que para seres humanos são necessários de 15 a 20 anos. Significa dizer que pode haver mais de 50 gerações de drosófilas em um ano, antes que um bebê humano possa mesmo começar a andar.




Há mais de mil gerações de drosófilas em uma geração humana (20 anos), sendo necessários mais de 20.000 anos para a mesma quantidade de gerações humanas. A evolução para drosófilas pode acontecer bastante rapidamente, razão pela qual é a espécie favorita para que os geneticistas estudem. A evolução humana acontece muito, muito mais lentamente. Nenhum cientista pode vê-la em ação do modo que pode observar a evolução da mosca de fruta ocorrendo no laboratório.



A seleção natural sob muitas circunstâncias exige um ambiente estável, constante para muitas, muitas gerações (mais uma vez, a menos que a pressão da seleção seja extremamente forte). Por exemplo, se o clima permanecer muito frio por séculos e milênios, gradualmente indivíduos com a melhor resistência ao frio serão favorecidos pela seleção natural, e seus vizinhos que têm menos resistência ao frio (que são mais adaptados a um clima quente) morrerão antes que possam deixar muitas crianças.




Isto acontecerá geração após a geração, até que um dia todos os seres humanos tenham grande resistência ao frio: um traço novo - resistência ao frio - teria evoluído e se tornado parte da natureza humana universal. Mas este traço não poderia ter evoluído se o clima ficasse frio durante um século (somente cinco gerações humanas, embora 5.200 gerações de drosófilas) e então quente por outro século, para ficar novamente frio no terceiro século. A seleção natural não saberia quem (que traços) selecionar.



Desde o advento da agricultura, há aproximadamente 10.000 anos, e o nascimento da civilização humana que logo se seguiu, os seres humanos não têm um ambiente estável de encontro ao qual a seleção natural possa operar. Por exemplo, há meros dois séculos (10 gerações) os Estados Unidos e o resto do mundo ocidental eram largamente agrários; muitas pessoas eram fazendeiras. Na sociedade agrária, homens conseguiram status mais elevado sendo os melhores fazendeiros; aqueles que possuíram determinados traços que os fizeram bons fazendeiros tiveram um status mais elevado e assim maior sucesso reprodutivo do que os que não possuíram tais traços.



Então, somente um século mais tarde, os Estados Unidos e a Europa tornaram-se sociedades predominantes industriais; a maioria dos homens viveu para as fábricas. Os traços que fazem os homens bons operários (ou, melhor ainda, proprietários de fábricas) podem ou não ser os mesmos que lhes fazem bons fazendeiros.




Determinados traços - tais como a inteligência, a diligência, e a sociabilidade – provavelmente permaneceram importantes, mas outros - tais como sensibilidade para a natureza, o solo, e os animais, e a habilidade para trabalhar ao ar livre ou prever o tempo - deixaram de ser traços importantes, e outros - tais como a pontualidade, a habilidade de seguir instruções, sensibilidade para a maquinaria ou aptidões mecânicas, e a habilidade de trabalhar em ambiente fechado - de repente se tornaram importantes.



Agora, somente um século mais tarde, estamos numa sociedade pós-industrial, onde a maioria não trabalha nem como fazendeiros nem como operários, mas na indústria de serviços. Os computadores e outros dispositivos eletrônicos tornaram-se importantes, e um conjunto inteiramente novo de traços é necessário para ser bem sucedido. Bill Gates e Sir Richard Branson (e outros homens bem sucedidos atuais) poderiam não ter sido bem sucedidos como fazendeiros ou operários.




Todas estas mudanças dramáticas aconteceram dentro de 10 gerações, e não se pode dizer o que o próximo século trará e que traços serão necessários para ser bem sucedido nele. Nós vivemos em um ambiente instável, em permanente mudança, e assim o fizemos por aproximadamente 10.000 anos.



Para centenas de milhares de anos antes, nossos antepassados viveram como caçadores-coletores na savana africana e em outras partes, num ambiente estável e imutável ao qual a seleção natural podia responder. Eis porque todos os seres humanos têm hoje os traços que lhes fariam bons caçadores-coletores na África – nos homens, a maior habilidade espaço-visual, que lhes permitiu retornar para casa com segurança, sem qualquer mapa ou GPS, após seguir animais numa caçada durante dias e quilômetros; nas mulheres, a maior memória de posição de objeto, que permitiu que recordassem onde árvores e arbustos frutíferos estavam para que retornassem lá a cada estação para a colheita, mais uma vez sem mapas ou marcos permanentes.



Nos últimos 10.000 anos, entretanto, nosso ambiente tem mudado demasiadamente rápido para que a evolução ocorra. A evolução não pode trabalhar contra alvos móveis. Isso explica porque os seres humanos não têm evoluído em nenhuma direção previsível desde aproximadamente 10.000 anos.



Eu me antecipo em acrescentar que determinadas características de nosso ambiente permaneceram as mesmas - nós sempre tivemos que conviver bem com outros seres humanos, e também sempre tivemos que encontrar e manter nossos (as) companheiros (as) – assim, certos traços, como a sociabilidade ou a atração física, foram favorecidos sempre pela seleção natural e sexual.




Mas outras características de nosso ambiente mudaram muito rapidamente em relação ao tempo de geração de nossa espécie, de uma forma relativamente aleatória: quem poderia ter previsto computadores e a internet há um século? Desta maneira, nós não temos sido capazes de nos adaptar e evoluir contra um alvo (ambiente) em constante movimento.




Pesquisa e tradução: Marcos Brunini (marcosbrunini@yahoo.com.br)

[1] Why human evolution pretty much stopped about 10.000 years, disponível em http://www.psychologytoday.com/blog/the-scientific-fundamentalist/200810/why-human-evolution-pretty-much-stopped-about-10000-years Acesso em janeiro/2009.

[2] Satoshi Kanazawa, psicólogo evolucionista, leciona na London School of Economics and Political Science e é coautor (com Alan S. Miller) de Por Que Homens Jogam e Mulheres·Compram Sapatos - Como A Evolução Molda Nosso Comportamento. Rio de Janeiro: Prestigio Editorial. 2007.

ivan de carvalho junqueira - direitos humanos

fonte: fashionkillsme.wordpress.com


DIREITOS HUMANOS, CIDADANIA & SEXUALIDADE*


Como sabido, junho passado foi o “Mês do Orgulho LGBT” em que, mais acintosamente, são transportados à tona, uma vez mais, extenso e não menos relevante rol de reivindicações, muitas das quais, ainda insistentemente não atendidas, em que pese algumas iniciativas, da parte de organismos governamentais e não governamentais, em especial, nos últimos anos, em se tendo por escopo, in concreto, o legítimo exercício à igualdade. Não apenas na lei, ao construir de magníficas palavras, mas à prática.

A propósito, o lema do 13.º Mês do Orgulho LGBT de São Paulo, promovido pela Associação da Parada GLBT foi: “Sem Homofobia, Mais Cidadania: pela isonomia dos direitos!”.

sessenta anos asseverou, brilhantemente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos o que se segue: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”, à luz do artigo I. Vivenciávamos o término de mais uma guerra, ao chocar das atrocidades de Hitler, de pessoas vistas quão objetos, quando muito, descartáveis. Ainda que carecedora de força compulsória, na medida em que nenhum Estado é obrigado a aderi-la, inovou ao contemplar, num só documento, dos mais primorosos princípios e garantias, a despeito de outros, adstritos a todos e a cada qual de nós, independente de origem, gênero, cor, etnia, profissão, condição econômica, opção política... devendo abarcar, hoje, sem margem à dúvida, o viés da sexualidade, àquele instante, não vislumbrado (expressamente).

Com o passar de seis décadas observamos que, leis, embora fundamentais, mesmo que maravilhosamente esculpidas, à primazia da técnica jurídica e gramatical, não constituem o bastante, não assegurando, por si só, o exigível respeito. Atos de discrímen ainda persistem, a rodo e em larga escala no seio da sociedade, bastando não mais que um singelo olhar à nossa volta. Alguém duvida?

na Antigüidade, mais precisamente entre os atenienses, começara a desenvolver-se a noção de cidadania, apesar da divisão em três distintas classes: cidadãos, metecos e escravos... Daí a importância de se agregar, aliado àquela, os conceitos de democracia e igualdade.

Hoje, contudo, o que mais se verifica é a falta de cidadania ou, noutras palavras, de acesso à cidadania, de milhões de seres humanos, diga-se, cidadania efetiva, à sua ampla acepção. Intrinsecamente, todos somos cidadãos, tendo por reconhecidos no papel dos mais importantes e fundamentais direitos, sendo os mesmos: irrenunciáveis, inalienáveis e indivisíveis... No cotidiano, porém, deparamo-nos com o outro lado dessa história, nem tão romântica assim.

Segundo o Aurélio, cidadania é a “qualidade ou estado de cidadão”, inferindo-se desta última expressão o “indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”. Ao teor da Magna Carta de 1988, tem-se, dentre os fundamentos da República Federativa do Brasil: a cidadania (CF, art. 1.º, II), prerrogativa esta, a nortear toda a Lei Maior, ao reconhecimento e defesa da própria dignidade.

De fato, ademais do não reconhecimento à plenitude da cidadania da população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), caminham juntos o preconceito e a discriminação, resquícios do ódio e da ignorância, sendo inúmeros os exemplos disto, não necessitando de maior explicitação. Perguntar não ofende: uma sociedade que pouco reconhece os direitos humanos de significativa parcela de seus cidadãos, inclusos não apenas os direitos sociais, previdenciários e sucessórios, mais aventados, mas, também, os direitos civis e de família (união civil e adoção bilateral, por exemplo) há de ser, realmente, democrática?

No que tange à expressão “homossexualismo”, fora cunhada já há várias décadas pelo médico húngaro Becker Benked que, naquele instante, dirigindo-se ao então Ministro da Justiça da Alemanha do Norte, deu ciência a este para com a incessante perseguição de cidadãos homossexuais por motivos, unicamente, políticos, estabelecendo-se, outrossim, pelo Código Penal do II Reich, em seu parágrafo 175, a cominação da pena de morte para estes casos. Vislumbrava o médico, a “anormalidade” daquela conduta, cujo estudo haveria de pertencer à área médica, apenas, e não à Justiça como desejavam alguns. Termo este, inclusive, presente no Código Internacional de Doenças (CID), analisada sob o enfoque da disfunção mental? No ano de 1985, pronunciou-se, finalmente, a Organização Mundial de Saúde, não mais considerando-a uma enfermidade. Embora usuais, as próprias referências “homossexualismo”, supramencionada, e “homossexualidade”, etimologicamente interpretadas, vêm, por assim dizer, enraizadas de pré-conceitos, uma vez que o sufixo “ismo” diz respeito, justamente, à doença, significando o termo “dade”, assim contida numa das assertivas, uma “forma de ser”.

Os cidadãos LGBT ou, simplesmente, cidadãos!, extirpados quaisquer rótulos, caricaturas e/ou siglas, têm sido, dia-a-dia, desrespeitados em sua dignidade enquanto ser, assistindo-se, não raro, a reiterados episódios de homofobia, desde as pequenas às grandes cidades. Há anos, a propósito, discute-se no Congresso Nacional a tipificação penal do delito homofóbico (tal como o crime de racismo), i.e., cuja motivação da parte do sujeito ativo (vitimizador) dá-se, essencialmente, pela não aceitação do outro ou, melhor, do próximo, frente a sua preferência sexual. Quem ainda se lembra do jovem Edson Neris? que, em plena Praça da República, no centro de São Paulo, veio a ser covardemente agredido pela ação de skinheads, vindo a óbito tempos depois. Mais um triste episódio a afrontar os direitos humanos, não o último, contudo.

Quando da realização da mais recente Parada, supramencionada, vivenciamos, uma vez mais, a perpetuação de condutas de cunho homofóbico, ao ceifar, entre outras graves violências, de outra vida.

Ao surgir da AIDS, referiam-se a esta, alguns, como “peste gay” ou “câncer gay”, em mais um recorte de profundo desrespeito, ao deletério ensejar de perniciosos estereótipos quão os “grupos de risco”.

Em consonância ao relatório “Juventudes e Sexualidades” então divulgado pela UNESCO, numa pesquisa realizada em quatorze capitais brasileiras, no ano de 2000, mas, infelizmente, ainda atual, verificou-se que, das pessoas entrevistadas (discentes, educadores e pais), nada menos do que 27% dos alunos não gostariam de ter de conviver, na mesma sala de aula, com colegas homossexuais, número este que sobe para 35% na visão dos ascendentes daqueles, onde 15% dos alunos ainda consideram o homossexualismo uma doença. Do ponto de vista religioso, para uma boa parte dos adeptos do catolicismo, esta também parece ser a interpretação. Como asseverou, duas décadas atrás, o cardeal alemão Joseph Ratzinger, hoje, Papa Bento XVI: “Ainda que a inclinação de uma pessoa homossexual não seja um pecado, é mais ou menos uma forte tendência a uma maldade moral intrínseca, portanto, uma inclinação que deve ser vista como uma enfermidade” (“Carta aos bispos da Igreja Católica no cuidado pastoral às pessoas homossexuais”, 1986).

Sem embargo, em se procedendo a exegese do nível ético e cultural de uma dada sociedade, basta observarmos quão são tratados os indivíduos que a ela se vinculam. Em comunidades menos desenvolvidas, há de se constatar que os primeiros a serem ofendidos ocuparão, por excelência, as posições já marginalizadas, entenda-se: os portadores do vírus HIV/AIDS, os adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa, os adultos privados da liberdade, as pessoas a alienar o próprio corpo, os silvícolas, os idosos, os afrodescendentes, os pobres, enfim, os homossexuais.

Parafraseando Hannah Arendt: “A essência dos direitos humanos é o direito a ter direitos”.

*Ivan de Carvalho Junqueira, Bacharel em Direito, autor de Dos Direitos Humanos Do Preso, ABC dos Direitos Humanos e Do ato infracional à luz dos direitos humanos. Contato: ivanjunqueira@yahoo.com.br

domingo, 23 de agosto de 2009

crônica - ronaldo duran

Fonte: eleandrodaflauta.blogspot.com/






A FLAUTA*







“Se alguém me contasse eu não acreditaria”, foi a fala do Gui logo que me viu levantar às três horas da manhã para ensaiar flauta. A noite foi boa, sim. Fiz de tudo para que o ego dele não balançasse. Sei, está virando um hábito. Toda vez que ele vem, eu faço isso. Soa incomum sair de perto do namorado no meio da madrugada. Quanto mais no nosso caso, que nos vemos a cada quinzena. Ficaria muito caro e cansativo para ir todo fim de semana para São Carlos. Idem para ele vir para São Paulo. A enfermagem suga toda a energia do meu amor, e nem ligo quando telefona dizendo que está um bagaço ou que tem plantão no fim de semana.




Os sábados solitários já seriam justificativa suficiente para arrumar um passatempo musical. O espanto do Guilherme é que sempre fui roqueira. Uma guitarra, mesmo uma bateria seriam previsíveis. Mas uma flauta? Aos poucos estou explicando os motivos a ele. Participar do coral do campus, preço em conta, o menor incômodo aos vizinhos, e segue a lista dos porquês.








Desde o primeiro ano de faculdade que pertenço ao coral. De início minha participação se restringia ao canto. Quase dois anos exercitando as cordas vocais às sextas-feiras. Era uma sauna para relaxar os nervos depois da aula da tarde. Da minha turma, quatro amigas. O professor de desenho arquitetônico II encerrava a aula e a gente ia para cantina, tomava um lanche e corria para o anfiteatro.




Dos poucos instrumentos que o coral contava, gostei da flauta. Soprei umas vezes, e que fracasso. Mas sei lá por que determinei que eu ia dominar, ia ter destreza. O universo conspira a nosso favor quando nos propomos a fazer algo. E não é que achei um estudante de jornalismo que tocava razoavelmente bem. O rapaz era ótimo. Tá, na terceira aula eu falei que tinha namorado e que até podia pagar as aulas se ele quisesse. Tudo para que ele abandonasse a cara de cachorro faminto e me desse o que me interessava: aulas de flauta. Ele se tocou e ficamos bons amigos.




Superei o mestre, segundo ele, já ao término de seis meses. Os treinos solitários nas várias madrugadas ajudaram nesta empreitada. A flauta acima de tudo foi uma terapia. Das vezes que quis detonar o professor de estatística, aquele engenheiro bêbado e desbocado, bastava eu soprar flautas à noite que no dia seguinte estava zen e que ele rosnasse o que quisesse. A solidão de minha kitinete igualmente fora aplacada pelo som e companhia de minha amiguinha. Até o momento fiz duas apresentações no conservatório da faculdade de música.




No terceiro ano de curso, quando a galera diz que a faculdade vai ou racha, quase pendi para a música. Pensei sinceramente trancar a faculdade de arquitetura e me atirar na de Música. Cheguei até assistir aulas como ouvinte. Mas no fim notei que minha praia era mesmo o ganha-pão de Lucio Costa. Música para fortalecer o espírito, acalmar os nervos. Ouvir flauta me inspirava nos trabalhos urbanísticos.




Tudo bem. Só que preciso moderar a paixão pela flauta para não se tornar um escapismo. Nada a ver deixar meu gato nas cobertas solitário.




(A garota deu um sorriso. Saltou do parapeito da janela. Guardou a flauta na caixa. E correu para debaixo das cobertas com seu amor enfermeiro).












* Ronaldo Duran, romancista, colabora em jornais. Contato: ronaldo@ronaldoduran.com