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domingo, 27 de setembro de 2009

conto - ronaldo duran*


DANÇANDO COM AS FRALDAS





Feliz de quem nunca teve uma pontinha de ciúme dos famosos, dos que têm a cara exposta na tevê, vestindo uma camisa do entretenimento.


As camisetas são várias. Futebol, novela, música, as mais freqüentes. As miúdas vêm na pele de jornalista, político, economista, sindicalista, até ginecologista. A de escritor, ainda que tímida, detém alguma presença.


Quem tem o rosto conhecido por milhões de brasileiros carrega consigo um algo especial. Assim supõe o público, ainda que a idéia nunca tenha passado pela cabeça do famoso.


Que menina, boquiaberta pelo rebolado duma dançarina de sucesso, não imaginou que se tivesse um quadril mais sensual poderia atrair igual destaque?


A febre de imitar ídolos é antiga.


Tempos atrás se imitava os chefes da tribo, os reis e rainhas. Nos dias de hoje, os meios de comunicação de massa fornecem a nova safra de ídolos.


Quem já não brigou, bateu, apanhou, ou sofreu, ou vibrou pelo time do coração? Quem nunca chorou e sentiu energia sem limite ao ouvir um cantor? Ou quis estar na pele de um galã ou atriz? Ou se enamorou dum artista?


Tarefa árdua procurar explicar o fenômeno da idolatria. Para uns, o motivo é a aparente vida fácil que o ídolo leva. Para outros, são as atitudes da pessoa famosa que dão o tom da admiração.
É justamente o segundo tipo que o conto retrata.


Lembra-se do sucesso de Madonna na década de 80? Um marco. Seu estilo influenciou o ritmo de muitos dançarinos que hoje são profissionais. Dança de alto e baixo impactos. O ritmo da rainha pop americana mexeu com as academias de dança brasileiras.


Em 1987, muitas jovens, ao ouvirem a loira cantar, afastavam as mesas e cadeiras, desobstruindo o espaço, para dançar. Que rádio em solo nacional evitava o som contagiante de Madonna? Até canais de tevê exibiam clipe.


Tânia Paliza Tallini, com 16 anos, era uma das dançarinas anônimas.


Catarinense, mora na cidade onde nasceu: Lages. Só mudou de região, indo para o novo centro. Vive com os pais num apartamento, faz uns dez anos. A infância passou na casa dos avós, na parte mais antiga da cidade. Basta ver a arquitetura predominante nas residências vizinhas.
Como a maioria, a casa possuía um quintal, suficiente para conservar um pé de laranja e um abacateiro, entre árvores não frutíferas, e uma horta, com verduras e legumes que saem dali direto para a panela. A criançada usava o espaço para brincar, correr à vontade. Tudo na maior felicidade. Nem faltavam os xingos quando a avó notava danos na plantação.


A Tânia preferia passar a maior parte do tempo na casa dos avós. Por que escolher ali em vez do bem localizado e confortável apartamento? Simples: a falta de espaço no segundo.


A segunda das filhas da sra. Paliza, a jovem Tallini sentia-se presa no apartamento para realizar o que mais gostava: dançar ao som de Madonna. Na casa de sua avó, pelo menos tinha um quarto ocioso, do tio que havia ido para o interior de São Paulo tentar a sorte como pedreiro há mais de uma década.


A avó vivia preocupada em dar conta das costuras. Apesar da aposentadoria, da ajuda dos filhos e do salário do marido, não largava mão da atividade. Uma maneira de se sentir útil. O preparo do almoço especial de domingo também dava grande satisfação.


Dona Evangelista, a avó, sabia como ninguém o que levava a neta a preferir o humilde casebre. Anos atrás, a garota já intrigava com a mania da dança. Dona Evangelista, àquela época, se emocionou, sabia que sua própria avó era uma dançarina de primeira. Em Sevilha, quem mais que os Palizas para bailar por toda la noche? Para ela, a neta herdou da tataravó o bailado irresistível, encantador. Pena que no Brasil as mulheres da família perderam o rebolado diante da rotina sofrida de imigrantes. As plantações e colheitas de milho e batata sequer davam tempo para tirar a saudosa sesta após o almoço.


A avó evitava perturbar. A neta se viu incentivada a ir lá durante uns bons anos. Pena que tudo tenha um limite. Bastou beirar os dezessete anos para a paz cessar. Era hora de definir uma profissão promissora ou um casamento vantajoso, ambos se possíveis.


Cedendo à natural preocupação materna quanto ao futuro dos filhos, a Sra. Vânia queria uma definição de Tânia. A mais velha cursava química em Joinville. A caçula ganhou uma bolsa para o colegial nos Estados Unidos, a partir do ano que vem. A patroa de dona Paliza, esposa de rico fazendeiro, deu uma força. O marido mantinha contatos importantes no Texas. Helena teve seus méritos. Atenciosa, aprendeu a bater à máquina, atender ao telefone e anotar os recados. Era a secretária mirim do casal.


Tânia é que encalhou. Manifestou uma preguiça incomum pelos estudos, se bem que nunca repetiu de série. Temendo os pais, achou melhor nunca perder um ano letivo. As notas eram razoáveis. Sabia fingir bem. Por dentro, odiava biologia, português e tudo o mais que exigisse uma concentração que ela não estava afim de dar.


Dançar, dançar e dançar era o que gostava.


Certos hábitos regionais, mesmo com o efeito da globalização, da tirania da tevê, conservam-se. Os jovens do interior de Santa Catarina raro têm acesso a toda a liberalidade dos que habitam os grandes centros.


A paixão pela dança teria apenas vazão em casa. Nos bailes e festas, Tânia se sentia meio sem graça. Odiava se expor. Sentimento esquisito, quanto mais se tratando de alguém que curte dança.


O ódio em se expor tinha lá suas razões. À medida que tentou se soltar, dançar livremente algumas vezes, as cabeças-de-bagre a fustigaram com seus preconceitos. Preferiu, pois, recuar. Dançaria o comum diante dos comuns. E o especial guardaria para quando estivesse solitária.
Preconceitos a acompanharam desde tenra idade até meados dos trezes anos, quando ainda ousava dançar na frente dos pais, dos parentes.


_ E essa menina! Nunca pára de saltitar que nem cabrito _ uma tia que falava.


_ Frango destroncado _ brincava um primo mais velho.


_ Mas para mim _ continuava a primeira _ acho que deve ficar de olho aberto... Essas coisas só servem para perder nossas crianças. Tem que ficar de olhos abertos... _ ela repetiu, acrescentando reticências alarmistas.


Os pais silenciaram.


_ Já pensou se um dia decide ganhar a vida rebolando? _ alfinetou.


_ Imagina! Antes morta... filha minha não entra nestas coisas _ berra o pai ao ouvir o disparate.


_ O mundo de hoje está perdido, meu compadre, e essas manias que vêm da cidade grande já puseram a perder muita gente. Depois que viram o juízo, não há santo que dê remédio.


_ Cruz e credo _ uma velhinha fez o sinal da cruz.


_ Culpa dos pais... é dar uma boa coça e tudo se endireita _ o pai ruminou.


Se na aparência os pais pouca atenção deram aos comentários, na prática mudariam em muito a atitude para com Tânia. Vendo a menina dançar, pediam que fizesse alguma coisa: lavar uma louça, costurar, acompanhar a mãe ao açougue. E se ela não tivesse o que fazer, inventavam. Queriam arrancá-la da ociosidade. As músicas agitadas sumiram. O AM voltou a predominar, sempre que os pais estavam em casa.


As filhas eram dependentes economicamente. O querer paterno tinha pleno poder de impedir que as meninas adquirissem os discos com músicas avançadinhas.


Tânia se viu acuada. Temente a Deus e superobediente aos pais, tudo sacrificaria para não os frustrar. Passaria a procurar a casa da avó.


Três meses mais à frente, encontrou um garoto simpático, o Joe Rinkis, vinte e um anos. As palavras gentis e o olhar acolhedor, únicos traços que o diferenciavam. Era caminhoneiro. Junto ao pai, fazia entregas em cidades de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Joe e o Sr.

Rinkis estreitaram relações com o pai de Tânia. A simpatia foi mútua.


Após um ano de namoro, Tânia, antipática aos estudos, tinha momentos de desespero. Sonhou fugir de casa, ir para Joinville, Florianópolis ou Curitiba.


Procuraria um lugar onde estudasse, aperfeiçoasse e ganhasse a vida com a dança. Embora gostasse de Joe, não hesitaria em deixá-lo se fosse necessário, se o rapaz se mostrasse relutante em acompanhá-la.


A obediência aos pais a impedia de uma atitude tão drástica.


A avó veio a falecer de doença. O avô, meses depois, seguiria a esposa, motivado pela solidão.


_ Viveram mais de cinqüenta anos juntos. O homem era uma criança... Partindo a companheira, morreria a vontade de viver.


Frases assim justificavam a ida repentina do avô.


Passada a dor pela perda dos avós, Tânia viu-se privada de espaço. A convivência no apartamento cada dia mais insuportável. Os pais, tradicionais, estavam longe do modelo dos que querem os filhos barbados e as filhas mulheres-feita grudadas à barra da sua calça.


O casamento com Joe acenava como uma solução imediata. O pai do rapaz arrumaria uma casa, simples, mas acolhedora.


Meses após o casório, as contrações no ventre anunciam um rebento.


Tânia se realizou como mãe. Gostava sinceramente do esposo. Frustrava-se pela ausência duma carreira, quando se comparava à irmã mais velha, única formada na família, ou à caçula, há dois anos nos Estados Unidos.


O marido, já de posse do próprio caminhão, em média levava uma ou duas semanas na estrada, sem dar as caras em casa.


A médica, após o parto, incentivou Tânia a praticar exercícios físicos.


_ Ajuda e muito.


Mas que exercício físico? Gostava só de dançar.


Um pouco pela ausência do marido, outro tanto pela tensão que é cuidar de filho pequeno, despertou para o antigo hábito de ouvir música na sala.


Joe adquiriu o três em um.


Pela primeira vez um disco da Madonna todinho seu. Punha para tocar e ouvia durante horas. Ouvia e dançava. E como dançava. Aí sim, se excitava para valer. Difícil os vizinhos não notarem a beleza que o corpo da dançarina dona-de-casa conservava. Pouco tempo depois, era mãe pela segunda vez.


Muitas vezes, surpreendia-se quem passava diante do portão de grades pintadas de vermelho. Olhos atentos se arregalavam face à empolgante figura, de menos de 22 anos, dançando com as fraldas, no momento que as pendurava no varal.


Uns a achavam louca. Outros, que a felicidade ali descobriu uma agradável morada.


* Romancista, escreve em vários jornais. Confira no Google.


sábado, 26 de setembro de 2009

direitos humanos - ivan de carvalho junqueira*


PARA ONDE CAMINHAM OS DIREITOS HUMANOS?




Conforme o divulgado, uma vez mais, pela Anistia Internacional, vem fracassando o Brasil em face de uma maior recepção de programas relacionados à proteção e defesa dos direitos humanos a que todos estamos sujeitos enquanto legítimos titulares, enfatizando-se, dentre outros fatores, a assídua ocorrência de homicídios oriundos da ação direta da Polícia, aliado à adoção de métodos de tortura e de maus-tratos nas mais diferentes esferas, de se acrescer as variadas rotas nacionais e internacionais à prostituição infantil e ao tráfico de pessoas...


Em se fazendo uma retrospectiva, mesmo que singela, verifica-se que a incidência deste ou daquele caso, ainda que inconcebível diante dos que ainda trazem consigo, junto ao corpo, o gérmen da indignação, mostra-se insuficiente para com uma efetiva mudança de postura por parte dos responsáveis (diga-se: todos nós) à idealizada alteração de rumo à luz de uma sociedade pretensiosamente melhor.


Analisando-se os Três Poderes, constatamos alguma ineficiência de suas atividades, seja no Legislativo, não apenas pelo não despertar de projetos direcionados a mais detida afirmação dos direitos humanos, em que pese a infinidade de tratados e convenções internacionais de há muito vigentes, como, também, pelas tentativas de contemplação de absurdos outros, por assim dizer, comprometidos com um já iminente recrudescimento em sede desta temática à minoração de célebres direitos. No Executivo, a despeito da criação de alguns programas a se ter por escopo a preservação dos direitos humanos, estes, infelizmente, ainda carecem de maior implementação.


No Judiciário, inobstante uma corriqueira e burocrática lentidão dos trâmites processuais, muitos dos ofensores aos direitos humanos sequer vão a julgamento, possibilitando-se evidenciar, pois, um triste e elevado grau de impunidade.


Como sabido, em menos de duas décadas, inúmeros foram os episódios a afrontar os direitos humanos no país. Aos idos de 1988, quatorze indígenas do povo Tikuna eram assassinados. Há quase dezessete anos, a 2 de outubro de 1992, nada menos do que 111 presos abrigados na Casa de Detenção Professor Flamínio Fávero (Carandiru), eram vítimas da atuação estatal.


Em 1993, fora a vez dos Yanomami, quando 16 morreram, dos quais 14 eram mulheres ou crianças. Ainda naquele ano, assistiu-se à chacina de Vigário Geral, no Rio, ocasionando o extermínio de 21 indivíduos sem detrimento à Candelária. Em 1995, na cidade de Corumbiara-RO, 11 pessoas perderam suas vidas por força do aparato policial contra elas utilizado, inclusa uma menina de 7 anos, atingida covardemente pelas costas. Passados 9 meses, no município de Eldorado dos Carajás-PA, foram brutalmente mortos 19 trabalhadores rurais sem-terra.


Em 1997, jovens da alta classe média brasiliense atearam fogo em direção a um índio da tribo Pataxó, Galdino, vindo este a falecer tempos depois. No ano de 2000, em plena Praça da República, em São Paulo, neonazistas espancaram até a morte o jovem Edson Néris pelo simples fato de ser homossexual. Em outra situação, agora na Castelinho, acabaram executadas doze pessoas que em um dado ônibus se encontravam. Em 2004, 7 moradores de rua foram mortos em pleno centro de São Paulo. Já no início de 2005, viu-se o assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em Anapu-PA.


Em seguida a isso, brindados fomos com o episódio da Baixada Fluminense, ocasionando a morte de três dezenas de pessoas, jovens em sua ampla maioria. Alguém ainda se lembra? Ressalte-se, também, que devido aos gravosos incidentes então ocorridos às dependências do Presídio Urso Branco, em Rondônia, respondera o país em âmbito internacional.


Infelizmente, apresentam-se estes, em conjunto a tantos outros, apenas alguns dos tristes exemplos, cujos episódios, passados não mais do que dois ou três meses, acabam por cair no esquecimento, vistos e interpretados, se muito, quão uma notícia qualquer.


O caminho à proteção e defesa dos direitos humanos é árduo e difícil e, mais do que nunca, não há tempo a perder!



*Bacharel em Direito e escritor. Contato: ivanjunqueira@yahoo.com.br

sábado, 19 de setembro de 2009

poesia - alexandre mohor*


A FELICIDADE





Não sei o tamanho da felicidade,

nem a forma que ela tem.

Ela pode passar por mime eu por ela também,

que vou continuar meu caminho

procurando saber de onde ela vem.

A felicidadenão é um jogonem uma equação.

Não vem num estojonem cabe numa encadernação.

Ela é como uma bela árvore isolada

em uma paisagem perto de nada.

Uma cabana abandonada

na beira de uma estrada desolada.

Só serve para quem achá-la.

Não é gol em estádio lotado,

não é espetáculo com ingresso esgotado

nem entrega de prêmio ao ilustre ovacionado.

Pois tudo isto depende de quem está ao lado.

Tudo isto depende de ser participado.

E a felicidade é algo tão pessoal

que a pessoa mais feliz do mundo

pode ser alguém que nunca foi notado.

Pois a felicidade não é algo noticiado.

Ninguém é notificado.

Não conta ponto para a nota da prova

nem para aumento de salário.

Não ajuda para conquistar a mulher amada

nem para melhorar o saldo bancário.

Só serve para acordar de manhã

dar um sorriso raro

e se sentir felizardo...



* Poeta. Contato: samo.lg@uol.com.br

educação - nelson valente*



SUPERDOTADOS ESQUECIDOS!





Estamos diante da irreversibilidade da nova lei da educação brasileira. Não custa, pois, acentuar alguns aspectos que poderiam ter merecido melhores definições, como é o caso da educação especial, tratada de modo superficial. É muito grande, no Brasil, o número de deficientes visuais, auditivos, motores e psicológicos, todos merecendo na escola os cuidados que são dispensados, com tanto carinho, nas nações mais desenvolvidas.


Por outro lado, no caso da educação infantil ( de 0 a 6 anos de idade) não basta a simples referência que se faz no instrumento legal. Não temos tradição no trato dessa faixa etária, de resto entregue à iniciativa privada, portanto inacessível, dado os seus custos, às camadas mais pobres da população.


Quando na LDBEN/9394/96 - se fala em superdotados há apenas uma referência no artigo 58.


Sabe-se que o Brasil tem cerca de 4 milhões deles, o que configura uma imensa potencialidade entregue à própria sorte. Se Israel pôde criar um Instituto para Superdotados, em que se faz uma apropriada educação complementar, por que não se pode pensar o mesmo entre nós?


Outro fato a merecer destaque: o grande número de alunos da rede pública que se encontram prejudicados pela distorção idade-série (mais de 80% do efetivo existente). Isso causa enormes prejuízos ao aprendizado e precisa ser considerado quando se vai partir para inovações pedagógicas.


Somos partidários igualmente de uma grande valorização da educação ambiental, prevista na Constituição Federal de 1988, de forma inédita no mundo. Não se tem notícia de nenhum outro país que determine, em sua Carta Magna, a adoção dessa disciplina. E finalmente cabe ainda um registro sobre o ensino médio, que é responsabilidade dos Estados. A valorização tecnológica não deve ser descartada das nossas preocupações. A profissionalização nesse nível pode ser um poderoso antídoto à onda de desemprego, São aspectos que, na implementação da LDBEN/96, talvez devam ser corrigidos por intermédio da legislação complementar e das ações a serem desenvolvidas pelos sistemas estaduais e municipais de educação.




* Professor universitário, jornalista e escritor. Contato: nelsonvalenti@hotmail.com

sábado, 12 de setembro de 2009

poesia - fatima rezende*


QUERO TEU ABRAÇO





Quero um abraço, forte e profundo...


Um grande abraço... bem apertado


Que me faça esquecer o mundo


E da realidade me refugiar...


E só por um minuto ser feliz,


Na magia... Minha alma entregar


E no silêncio deste abraço sonhar!


Sonhar com o impossível!


No entrelaço dos braços...


Minha energia recarregar...


Sentir os braços teus... e meu coração a pulsar


Num descompasso silencioso...


Guardando segredo meu...


Ah ! abraço...entrelaço...


Quiçá este momento eternizar!


No tempo e no espaço... deste abraço


Minha alma acalentar...


Pois... só quero um abraço


E no silêncio a saudade findar...


*Poeta e psicóloga. Contato: fatima-rezende@hotmail.com

iniciativa na escola - profa. sandra martins modesto*


O SEGREDO DOS AMULETOS





O projeto que apresento para vocês é a criação de um livro de ficção, que é o primeiro de uma série de 10 volumes, mas não só um livro de ficção, é um trabalho de alunos da 7ª série do Ensino Fundamental da Rede Pública de Ensino, sob a minha supervisão. O que lhe apresento é um trabalho desenvolvido por quatro adolescentes na faixa etária de 12 a 14 anos, que escrevem simultaneamente roteiro para desenvolver a mesma história, os mesmos personagens e os mesmo critérios de escrita para criar um livro.


São quatro alunos, o que para a maioria vai parecer estranho, mas esse é realmente um trabalho a oito mãos. Reunir quatro mentes, pessoas distintas com idéias e formas de escrever diferentes. Desta forma pareceria difícil conseguir uma história única e coerente, no entanto, esta façanha rendeu um livro com 180 paginas e continua a render a seqüência dos volumes, tendo hoje até mais um aluno envolvido no processo.


Para escrever o livro os alunos se reuniam na escola e em horários extra-escolares, em sua residência ficava o trabalho de escrita individual. O processo de confecção do livro se deu com discussões, desenhos (story board), encenação e a partir disso era construída uma seqüência para a história, tudo isso antes que ela fosse para o papel, então dividimos quem ia escrever o quê, assim eram produzidos mais de dez capítulos de uma vez. Os alunos escreviam os capítulos a mão ou digitados e nós nos reuníamos para costurar e revisar a história. O livro que estou falando foi escrito em três rápidos meses, já com partes do segundo, sendo escritas simultaneamente.

Apresento-lhe a sinopse do livro:


Uma vida pacata com seu pai, amigos e amores. Quem não sonharia com isso?
Quem diria que o destino do mundo estaria nas mãos de um simples garoto de 11 anos, que se descobre portador de um amuleto capaz de destruir ou salvar o mundo.


Marcelo começa a fazer inúmeras descobertas sobre seu próprio poder e sobre sua família, mas antes que ele possa novamente ser feliz terá que travar uma batalha com um homem que é o “Senhor do mal” e talvez enfrentar quem ele menos espera... Será que esse menino controlará todo esse poder?


O segredo dos Amuletos – O começo, conta o início da trajetória de alguém que se transformará em um grande herói.
*Profa. Sandra Martins Modesto leciona na EE Profº. Sérgio da Costa, em São Paulo, Capital.


Me predisponho a dar maiores informações sobre todo o trabalho, seja através do Blog: http://osegredodosamuletos.zip.net, pelo e-mail: sandramartinsc@uol.com.br ou pelos telefones: (11) 2996 7789 c/ Sandra (11) 22673376 c/ Luan

domingo, 6 de setembro de 2009

conto - ronaldo duran


A CAPA DA AFRODITE*


Sinceramente nem ela mesma compreendia por que tamanha apreensão. Dos amigos, de alguns parentes e ex-namorados, o apoio parecia unânime. Ninguém a repreendeu quando comentou sobre o convite.


_ Se o cachê for bom, minha filha, pose _ era a opinião da tia Neuza.


Tia Neuza da pá-virada, tipo hippie neoliberal. Complicado se espelhar nela. Mas se os demais pouco ou nada diziam em oposição. Um martírio decidir-se sozinha.


Os ex-namorados davam a maior força. Pena que estava sem companheiro há dois anos. Será que se estivesse namorando o sujeito aceitaria numa boa? Provavelmente não. É o que lhe diz o sexto sentido, desenvolvido diante do estilo bem possessivo dos rapazes de Maringá.


Jacqueline Began Khour, dezoito anos, faltando um mês para atolar os pés nos dezenove, estava num dos maiores impasses de sua vida. Recebera um convite, de seu empresário, para posar nua na Afrodite, edição de março de 1998.


_ E isto é o começo, fofura! Se gostarem da sua carcaça, é quase certo que consiga lugar numa revista estrangeira. Tudo depende do primeiro trabalho.


As palavras vinham de Rafaelo De Poli, agente de modelos. Bem-sucedido, rodava o mundo. Diante dele, que mulher, por mais segura e experiente, não se sentia fragilizada, carne exposta no açougue? Rafaelo nunca encostava a mão nas modelos, era gay. Em contrapartida, o olhar que cravava nas coitadas queimava que nem óleo fervendo.


A jovem paranaense nunca havia se esbarrado com uma raposa da nudez mercantilizada. Natural que o constrangimento a envolvesse.


A proposta é um divisor de águas em sua carreira.


Subiu na passarela aos nove anos. Um desastre. Seu forte seria posar como capa de revista. Quantas capas feitas? Perdeu as contas. Na idade de dez a treze anos, as fotos angelicais fizeram muito sucesso (realçando os cabelos bem pretos e uma carinha de leite). Os traços delicados do rosto chamavam atenção para os produtos infantis.


Dos catorze aos dezoito anos, mudou de atuação. Vieram os perfumes, absorventes, chocolates, desodorantes, dia dos namorados. Sem faltar os anúncios para vestibular e festas em rodeios.

Nunca posou nua. Durante os seis primeiros anos de trabalho, os pais sequer permitiam que algum fotógrafo avançadinho a saboreasse em peças mais decotadas.


Duas semanas atrás, veio a bomba.


Cândido Basbalho Silva, o chefe de Jacqueline, assim que Rafaelo encerrou a fala, acrescentou:


_ Você está muito conhecida. O mercado é rotativo, requer coisa nova, cara nova. O consumidor se cansa de ver o mesmo rosto todos os dias, associado a um produto. O que é repetitivo fica monótono na propaganda. Veja, mesmo a Xuxa já deu no saco. A rainha dos baixinhos se segura porque é multifacetada. Banca de empresária numa hora; noutra, de apresentadora; às vezes, agente humanitária; noutra, de garota propaganda. Se ficasse só exibindo o corpo pra vender, quebraria. Mas você não é nenhuma Xuxa. Vai ter que diferenciar.


Jacqueline embirrou, único meio de mostrar que não estava afim da proposta.


_ É para teu bem. Quero te ver brilhar. Ora bolas! Quantos rostinhos bonitos entram por aquela porta toda semana? Você mesmo vê. E eu nunca te deixei na mão, sempre quebrando galho. Lembra-se quando o papel de criancinha inocente já não caía bem, eu te conservei. Outro te dispensaria.


“Quanto você ganhará, aproveitador?”, pensou Jacqueline. Acostumada com as manobras do empresário, sabia que boa ação é sinônimo de enganação. Tudo tinha preço.


_ Então, vai pegar ou largar? _ Cândido intimou.


Jacqueline teimava no silêncio.


Basbalho, vendo que a resposta viria a custo e como estava prestes a viajar, concluiu:


_ Vou ficar uma semana em Curitiba. Terá tempo de sobra para pensar. Seu contrato venceu ontem. Se aceitar posar, além da grana que vai encher teu bolso, eu prometo que o renovo por mais um ano. Você viu que nesse ano tirou meia dúzia de fotos, mas nem por isso deixei de depositar todo santo mês teu salário. Leve isto em consideração.


Chegou em casa meio grogue. Estava em conflito. Conversou com a mãe durante um bom tempo. Óbvio que a notícia arrancou de dona Regina Began Khour arrepios de apreensão. Através de palavras brandas, a mãe dizia que se dependesse da vontade dela a filha descartaria a proposta. O pai, hora mais tarde, emitiria idêntica opinião, com tom mais explícito.


_ Seria um grande erro aceitar. É assim que os desavergonhados começam. Quando fotografias decentes não agradam mais, querem desgraçar a vida das pobres...


A filha, constantemente tão contrária às palavras paternas, desta vez meio confusa, até as considera sensatas.


Por que os pais de Jacqueline, embora revoltados com a notícia, não a impedem de cometer o que classificam de falta grave? Simples: acreditam que perderam direito de mando.


A vontade soberana da filha teve início a partir do momento em que passou a receber os bons salários pelos primeiros serviços como modelo.


Se houve uma certa resistência no começo, meses mais tarde os pais a tratariam como o orgulho da família. Foi uma alegria inenarrável quando um vizinho, há oito anos, trouxe a primeira revista. Na capa, pequenina, olhos castanho-claros, cabelos negros e compridos, pele muito branca e uma denguice pouco comum aos descendentes de imigrantes europeus instalados no interior do Paraná.


Devido à melhora do padrão de vida da família, através da grana que o sucesso da filha arrecadara durante anos, os pais se inibem de promover qualquer retaliação à sua carreira profissional.


Os amigos se dividiam. Havia quem estimulasse e quem achasse inconveniente.
Nos pais, doía a impotência de não poder fazer valer a vontade de impedir a decadência escancarada.


Durante um almoço com a tal tia da pá-virada, haveria um xeque-mate para a situação conflitante.


_ Pose minha filha... É supernormal. Antigamente era reservado às mulheres da vida se aventurarem nesse terreno. Hoje, cocotinhas das classes alta e média disputam aos tapas quem tira a roupa primeiro. Quem tem um corpo mais ou menos em cima deve aproveitar a mão que a sorte estende. Mesmo porque a concorrência cresce a cada dia. Se você não posar, outra o fará e levará a grana.


_ Mas...


_ Pare de recear. Veja nas academias, a moda do corpo sarado. As mulheres que não tiveram a sorte de possuir seu corpinho só faltam botar os bofes para fora de tanto malhar; comida natural, dieta, e por aí vai. Até as famosas, que posaram duas ou três vezes, com medo da concorrência, se submetem a retoques, tirando bunda, colocando seio, rasgando rosto, implantando cabelo... Que loucura! Vá menina. Aproveita o que ganhou de graça da natureza e faça seu pé-de-meia. Ah, se fosse comigo!


Aceitou. Não muito pelos conselhos de Neuza. Aceitou, aceitando. Como o funcionário que cede suas férias a pedido do patrão, mas sem qualquer vontade.


Um sucesso. Trezentos mil exemplares vendidos em duas semanas.


_ Isto, garota, ficou uma maravilha! _ Rafaelo dava pulos de satisfação, elogiando as fotos.


_ Melhor, impossível _ Basbalho aplaudiu.


Vendo a exaltação de Cândido, Rafaelo emitiu opinião mais perfeccionista.


_Para começo está bom. Mas quando for para gringos, a gente vai ter que caprichar.


Cândido deu uma cotovelada no sócio. Conhecendo Jacqueline, sabia que estaria extremamente envergonhada diante de Rafaelo, que olhava e manipulava as fotos despudoradas de maneira tão desconcertante.


Rafaelo, alçado por um resquício de sensibilidade, aceitou a advertência. Cessou a brincadeira. Resolveu ir direto ao assunto: a grana. “Agora quero ver se a vagabunda terá tanta frescura”, vociferou consigo o infame empresário.


_ A senhora sabe quanto ganhou?


_ Nem imagino.


_ Chute. Quanto? Leve em consideração que a revista roda o Brasil de norte a sul.


_ Cinqüenta mil? _ arriscou sinceramente Jacqueline.


_ Bobinha... Se o Basbalho fosse mau caráter ficaria rico às suas custas. Cinqüenta mil reais hein?

Cândido quis seguir a brincadeira.


_ Trezentos e cinco mil reais... Está bom para você?


_ Claro.


Rafaelo fez o cheque e depositou em suas mãos.


_ Isto é só o começo.


_ Como assim? _ perguntou Jacqueline.


_ Se tudo correr bem, mês que vem teremos novidade. Outro convite.


Puxa, trezentos mil. Dava para fazer muita coisa. Jamais recebera tamanha quantia. Houve uma vez, 1993, que ganhou um gordo cachê. Coisa de trinta mil. Tinha sido o maior prêmio.


Jacqueline caminhou do estúdio em direção ao estacionamento. Desligou o alarme do carro, nada menos que um Peugeot 97. No porta-luvas jazia a revista. Podia pegar no estúdio, mas não o fez. Comprou na banca. Apesar de normal para uns, a verdade é que o marinheiro de primeira viagem tem lá suas apreensões quando está prestes a ver sua nudez estampada e sujeita ao julgamento do grande público.


Logo cedo, apareceu numa banca distante de sua casa e nunca antes visitada. Buscava o exemplar. O jornaleiro, tão preocupado em dar atenção à clientela assídua, sedenta por seus jornais diários, nem notou a pequena. Da parte dos clientes, houve quem lhe passasse uma cantada, tipo lobo faminto. O garanhão só não gostou da resposta da garota, nem do riso dos circundantes.


_ Vá procurar sua turma _ bradou elegantemente Jacqueline.


Minutos mais tarde, à direção do confortável importado, passeava pelas ruas de Maringá. Os pontos turísticos, as pessoas na rua, o trânsito complicado em certos trechos, os pedintes, os mendigos, os ônibus carregando os trabalhadores, nada interessava. Apenas as revistas dependuradas nas bancas chamavam sua atenção.


Impossível esconder a recaída ao enxergar seu pôster. O pudor latente a atormentou. Se pudesse, sairia do carro e, arrancando-o, faria pedacinhos.


Dali a uma hora, em casa, meio desconcertada, começaria a receber os telefonemas. Algumas amigas elogiando, falando que estava bonita, e que tudo ia dar certo. Houve outras que nem deram as caras, sequer ligaram. O radicalismo presente forçaria a perda de amizades de longa data.


À tarde, um telefonema grosseiro. Com certeza algum conhecido de uma amiga ou ex-amiga sua. Só podia ser. Primeiro, porque a voz era estranha; segundo, ele estava com seu número de telefone.


_ Alô, de onde fala?


_ Aqui é a Jacqueline.


_ A gostosa que saiu nua? Comprei a revista. Gostei das curvas. Olha, você já está fazendo programa? Quanto é?


Ela desligou.


Doeu pra caramba.


Seria o início do tumulto que duraria meses. Passou a evitar e ser evitada no bairro em que morava. Os parentes, alguns, nunca mais voltariam a pisar na casa dos seus pais. Dois dos ex-namorados, diante dos colegas de farra, abusaram de rótulos pejorativos, humilhando-a.


Quem queria namorá-la? Ninguém naquela cidade. Os telefonemas escandalosos, atirados e maldosos, choviam quase todos os dias. Eventuais pichações nos muros da vizinhança aviltavam sua pessoa.


Mudou-se com a família para Curitiba.


_ Posar é apenas a ponta do iceberg. O obstáculo maior é ter de enfrentar velhos amigos com seus preconceitos ocultos ou escancarados _ disse uma colega de profissão, ao ouvir as lamentações de Jacqueline.


Sofreu por um bom tempo.


Em dezembro de 1998, viajou para a Europa, a fim de fazer novas fotos para outra revista masculina. Longe do ninho, a coisa ficou mais fácil. O cachê ultrapassou o primeiro milhão de dólares.


*Ronaldo Duran, romancista, escreve em jornais. Este conto é do livro SONHAR É BOM, VIVER É MUITO MELHOR.